Há uma confusão muito conveniente que o século XXI cultiva com o cuidado de quem rega uma planta cara: a ideia de que inovar é prerrogativa do presente. Que o homem antigo era um bicho que tropeçava na própria sombra e precisava esperar dois mil anos pelo iluminado gestor público moderno para descobrir que água fria é desconfortável no inverno. A notícia que serve de pretexto para esta coluna desfaz esse mito com a elegância de quem derruba um castelo de cartas soprando devagar, mas o que ela não diz, e o que precisa ser dito em voz alta, é que esse mito não é inocente. Ele tem endereço, tem financiamento e tem interesse.

Os romanos aqueciam o piso das casas por convecção de ar quente há mais de vinte séculos. Os gregos construíram um dispositivo capaz de calcular trajetórias astronômicas com engrenagens de bronze, um mecanismo tão sofisticado que os engenheiros do século XX, quando o encontraram no fundo do mar, ficaram incrédulos durante décadas, porque a narrativa dominante simplesmente não comportava aquele objeto. A Pérsia tinha sistemas de refrigeração por evaporação que resfriavam ambientes no meio do deserto. Bagdá, no século IX, tinha bibliotecas e hospitais com triagem médica enquanto a Europa ocidental ainda usava o crânio dos inimigos como taça comemorativa. Nenhum desses avanços saiu de um plano quinquenal, de uma secretaria de ciência e tecnologia ou de uma parceria público-privada com cláusula de exclusividade. Saíram de homens livres, com problemas concretos, resolvendo coisas concretas com os recursos que tinham em mãos.

Esse é o ponto que a ideologia do progresso não consegue digerir sem engasgar: a criatividade humana não é produto do Estado. Nunca foi. O Estado chega depois, batizando com o próprio nome aquilo que o mercado, o artesão, o engenheiro curioso ou o comerciante ambicioso já construiu. Roma não inventou o aqueduto porque o Senado romano publicou um edital de inovação. O aqueduto apareceu porque alguém, em algum momento, entendeu que água corrente valia mais do que água carregada no ombro, e que quem resolvesse esse problema ganharia dinheiro, prestígio e poder. O lucro, essa palavra que a sensibilidade contemporânea pronuncia como palavrão, foi o motor de boa parte do que hoje chamamos de civilização.

A pergunta que ninguém faz quando lê essas curiosidades históricas, essas listas de "coisas incríveis que os antigos já tinham", é a seguinte: por que parou? Por que o mecanismo de Anticítera não gerou uma indústria de instrumentos de cálculo? Por que o aquecimento romano por hipocausto desapareceu por mais de mil anos depois da queda do Império? A resposta não é tecnológica. É política. Quando o Estado colapsa ou quando ele se transforma em algo suficientemente parasitário, o excedente econômico que financia a experimentação some junto. Não existe inovação sem sobra. Não existe sobra onde o fisco ou o saque sistematizado consomem tudo o que o homem produz. A Idade Média não foi escura porque as pessoas ficaram mais burras. Foi escura porque as condições institucionais que permitiam acumular, investir e experimentar foram destruídas, e levou séculos para reconstruir algo parecido.

Então quando alguém, hoje, aparece com a história de que o governo precisa "liderar a transição tecnológica", "coordenar a inovação nacional" ou "garantir soberania digital", o que está sendo vendido, embrulhado em papel-presente com laço tricolor, é exatamente o mecanismo que, historicamente, mata a inovação. Não a promove. O Estado é o melhor arquivista da inovação alheia e o pior produtor da própria. Seu talento institucional está em chegar quando tudo já foi feito, cobrar pelo uso, regulamentar a concorrência e declarar no discurso de posse que aquilo foi conquista do povo. Os romanos, os gregos, os persas e os árabes medievais não precisaram de ministério para construir maravilhas. Nós, aparentemente, precisamos de ministério para tudo, inclusive para explicar que eles existiram.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.