O pedido entrou na Justiça pelas mãos dos filhos, a esposa concordou, e o ex-presidente que por oito anos assinou as canetadas mais consequentes da redemocratização brasileira será formalmente declarado incapaz de administrar a própria vida. A notícia chega embalada no papel de seda da compaixão, e convém que seja recebida com humanidade, porque Alzheimer é doença cruel, que não escolhe currículo. Mas há algo que incomoda no modo como a imprensa oficial trata o episódio, um ar quase litúrgico, como se o homem ainda fosse monumento vivo, e não um senhor de noventa e quatro anos vencido pela biologia.
A ironia é densa, quase insuportável para quem tem paladar histórico. O mesmo sujeito que, do alto de sua cátedra, gostava de dizer que havia que se esquecer o que escrevera antes para entender o que fazia depois, agora é esquecido pela própria memória. Há uma justiça poética nisso, não no sentido moral, mas no sentido aristotélico da coisa: o intelectual que transformou a inconsistência em método termina a vida sob tutela porque perdeu a capacidade de manter os próprios pensamentos em fila. A natureza, essa velha teimosa, cobra.
Vale lembrar, sem maldade, apenas com contabilidade, quem pagou e quem recebeu na festa que ele presidiu. O plano de estabilização que lhe rendeu o trono foi vendido como milagre, mas o milagre custou caro: privatizações conduzidas a preço de banana para conglomerados amigos, endividamento externo, juros estratosféricos que engordaram rentistas enquanto a indústria brasileira definhava, reformas que cimentaram o Estado inchado em vez de enxugá-lo. O pobre ganhou inflação domada e perdeu emprego industrial; o banqueiro ganhou os dois. A aritmética é sempre a mesma, muda apenas o sotaque do mordomo.
E há a outra face, a cultural, aquela que ele ajudou a construir com mais esmero que a economia. A figura do sociólogo-estadista, do homem cosmopolita que lia em francês e despachava em inglês, foi o grande embalo propagandístico de uma geração que confundiu verniz acadêmico com competência administrativa. Criou-se a religião do tecnocrata civilizado, e o país engoliu a hóstia. O problema é que o tecnocrata civilizado, quando retira a toga, costuma deixar atrás de si uma conta que o trabalhador paga em imposto, em tarifa, em juro embutido no pãozinho da padaria. O banquete foi francês; a louça, brasileira; o chão, nosso.
Agora que o próprio ex-presidente se transforma, diante dos olhos da família, num senhor que precisa de curador para assinar o próprio nome, convém ao leitor fazer o exercício de separar a compaixão pelo homem da mitologia construída ao redor do cargo. Compaixão pela pessoa, sempre. Reverência pelo legado, nunca de graça. O Estado que ele modernizou continua o mesmo monstro que drena o bolso alheio para alimentar castas protegidas; apenas trocou de gerente algumas vezes desde então. O curioso é perceber que, enquanto o velho intelectual perde lembranças, o país parece teimar em esquecer, voluntariamente, aquilo que nunca deveria ter esquecido.
Fica a lição, que não é nova, apenas repetida em tons diferentes pelos séculos: toda vez que um povo confia os cofres a sábios de gabinete, sai da experiência mais pobre, mais tutelado, mais grato por migalhas. O senhor que agora será interditado pela família conduziu, em escala nacional, uma interdição muito maior e nunca reconhecida, a da soberania orçamentária do cidadão comum. Que a velhice lhe seja serena, como se deseja a qualquer um. Quanto ao resto, o Brasil ainda espera curador.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.