Alexandre Ramagem está solto. Sua mulher, Rebeca, publicou um vídeo abraçando as filhas, o reencontro filmado com a estética calculada de quem sabe que a câmera é uma arma política. As imagens circularam nas redes com a velocidade que só a indignação represada ou o alívio genuíno conseguem produzir. O fato em si é simples: um homem que estava sob custódia no Estado da Flórida foi liberado. Sua família comemorou. Fim. Mas a simplicidade do fato esconde a complexidade obscena do mecanismo que o produziu, e é justamente aí que mora o problema que ninguém quer discutir.

Veja bem o que aconteceu nos últimos meses com Ramagem. Um ex-diretor da Agenência Brasileira de Inteligência, ex-deputado federal, homem que transitou pelos corredores mais escuros do poder, foi preso em território estrangeiro numa operação que envolveu cooperação entre governos, aparatos judiciais de dois países e uma quantidade de dinheiro público que ninguém se deu ao trabalho de calcular. Quanto custou ao contribuinte brasileiro essa persecução? Quanto custou ao contribuinte americano manter um estrangeiro sob custódia? Perguntas elementares que nenhum jornalista fez porque a imprensa brasileira está ocupada demais escolhendo lado para se lembrar de que jornalismo é, antes de tudo, contabilidade do poder.

O vídeo da família Ramagem é comovente, não nego. Filhas abraçando o pai, a esposa com os olhos úmidos, a liturgia doméstica do reencontro. Mas a emoção, por mais legítima que seja, não pode servir de cortina de fumaça para a questão estrutural. O mesmo aparato estatal que arrancou esse homem de casa é o que agora o devolve, e em nenhum dos dois momentos o cidadão comum teve qualquer controle sobre o processo. Você não foi consultado quando o prenderam. Você não foi consultado quando o soltaram. Você apenas pagou a conta, nas duas vezes. É assim que funciona o monopólio da força quando se disfarça de justiça: ele age, você financia, e se reclamar é obstrução.

Há quem celebre a prisão como vitória da lei e há quem celebre a soltura como vitória da liberdade. Ambos estão enganados pela mesma ilusão. A lei que prende e solta ao sabor de conveniências políticas não é lei, é instrumento. E instrumento não tem moral, tem dono. A verdadeira pergunta nunca é "Ramagem é culpado ou inocente?", porque essa pergunta pressupõe que o sistema que julga é íntegro. A pergunta correta é anterior: quem controla o sistema que decide culpa e inocência, e que incentivos essa pessoa tem para decidir de um jeito ou de outro? Quando a resposta a essa pergunta é "políticos eleitos que dependem de alianças para sobreviver", qualquer veredicto se torna suspeito por definição.

O caso Ramagem é, no fundo, um espelho. Não do homem, que é apenas mais um peão no tabuleiro, mas do arranjo inteiro. Um país onde o aparato de inteligência serve a quem está no poder, onde a Justiça opera em velocidades diferentes conforme o réu, onde a cooperação internacional funciona perfeitamente quando convém e emperra quando não convém, não é um país de leis. É um país de conveniências. E conveniências, como todo bom comerciante sabe, têm preço. Alguém pagou para Ramagem ser preso. Alguém pagou para Ramagem ser solto. E esse alguém, caro leitor, tem o seu CPF.

Que Rebeca Ramagem abrace suas filhas em paz. Que a família tenha seu momento. Mas que ninguém, absolutamente ninguém, confunda um vídeo bonito nas redes sociais com o fim da história. A história só termina quando soubermos exatamente quanto custou, quem autorizou e quem lucrou. Até lá, o que temos não é justiça. É teatro. E no teatro do Estado, o ingresso é compulsório.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.