Trinta e sete anos de idade, cinco estados percorridos, uma fraude grosseira repetida à exaustão e, ainda assim, funcionando. A mulher presa em Joinville se apresentava como menina de doze anos, conseguia abrigo, comida, afeto e teto sob o pretexto da orfandade fabricada, e seguia em frente quando a encenação começava a desmoronar. A pergunta que ninguém faz é a mais óbvia: como alguém consegue trafegar por cinco unidades da federação aplicando o mesmo golpe, sem que o aparato burocrático que controla cada centímetro da vida do contribuinte honesto perceba absolutamente nada?

A resposta é simples e desconfortável. O Leviatã que exige biometria para você abrir conta, CPF para comprar pão de queijo e reconhecimento facial para entrar em estádio é o mesmo que perde o rastro de uma adulta passando por criança em cinco estados consecutivos. A vigilância não falha por incompetência, falha por desinteresse. Vigiar o cidadão produtivo rende imposto, multa e dado para vender. Vigiar a vigarista itinerante não rende nada, então não se vigia. O esquema funciona como o gerente bancário que conhece cada centavo seu mas alega ignorância sobre os bilhões que somem nas contas do regime.

Há também a questão moral que a imprensa lacrimosa não toca. Quem socorreu essa mulher foram famílias particulares, gente que abriu a porta de casa porque ainda acredita em caridade cristã, em compaixão concreta, em ajudar o próximo com o próprio bolso e o próprio sofá. Não foi conselho tutelar, não foi assistente social concursada, não foi secretaria municipal de coisa nenhuma. Foram os trouxas de sempre, aqueles que ainda fazem o trabalho que o Estado prometeu fazer em troca de metade do salário deles. E o resultado da boa-fé alheia foi serem usados como pousada gratuita por uma profissional da impostura.

Note a inversão diabólica da coisa. O governo confisca renda alegando que precisa cuidar dos desamparados, monta uma máquina trilionária de assistência social, contrata exército de funcionários, ergue prédios, compra carros oficiais, e quando aparece um caso real de pessoa supostamente vulnerável quem aparece para acolher é o vizinho, o leigo, o cidadão comum que já pagou pelo serviço e ainda assim presta o serviço de graça. Pagamos duas vezes: uma na fonte, outra na hora do aperto. A diferença é que na primeira somos obrigados sob pena de cadeia, e na segunda somos enganados sob pretexto de virtude.

O caso ainda revela algo que a sociologia universitária finge não enxergar. Existe uma indústria silenciosa de exploração da bondade alheia, que se especializou em manipular justamente os mecanismos de proteção à infância, à mulher, ao vulnerável, ao migrante. Toda categoria intocável criada pelo discurso oficial vira atalho para o malandro de plantão. Quando uma palavra mágica garante abrigo automático, surge sempre quem decora a palavra. Foi assim com o falso refugiado, com o falso perseguido, com a falsa vítima de tudo quanto é coisa, e agora com a falsa criança de doze anos que já passou dos trinta. O incentivo perverso produz o comportamento perverso, e o resto é literatura.

Fica a moral concreta do episódio, sem rodeios. A caridade verdadeira é aquela que arrisca o próprio bolso e por isso aprende a discernir; a caridade estatal, financiada com o dinheiro extorquido de terceiros, é cega, gorda e burra, e termina sempre criando o problema que diz combater. As famílias enganadas serão acusadas de ingenuidade, a farsante terá direito a defensoria pública custeada pelas vítimas, e a máquina que deveria ter detectado tudo seguirá pedindo aumento de orçamento para combater exatamente aquilo que não combateu. Quem paga continua pagando, quem recebe continua recebendo, e o circo segue rodando entre Joinville e os outros quatro palcos da turnê.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.