A imagem é quase cômica, se não fosse trágica. O sujeito apontado como gênio do nosso tempo, dono de foguete, carro elétrico, satélite e rede social, entra no recinto mais solene da ditadura asiática rodopiando com o celular esticado, como turista japonês em Paris nos anos noventa. O Grande Salão do Povo, palco onde milhões foram condenados ao silêncio, ao trabalho forçado e à fome planificada, virou cenário de stories. E o gesto, antes de ser deselegante, é revelador: mostra exatamente onde mora a alma do personagem e a quem ele de fato presta contas.

Convém lembrar a obviedade que a imprensa palaciana finge esquecer. O império desse bilionário não nasceu numa garagem mítica nem na pura magia do livre mercado. Nasceu mamando em contrato militar americano, subsídio verde, crédito federal subsidiado, isenção fiscal estadual e, do outro lado do Pacífico, megafábrica erguida em terreno entregue de bandeja pelo Partido Comunista Chinês com financiamento de banco estatal. Ou seja, o capitalista heroico é, na prática, o maior beneficiário simultâneo dos dois leviatãs que disputam o século. Filma a cerimônia porque a cerimônia é, literalmente, o balcão onde se decide quanto dinheiro alheio vai continuar pingando na conta dele.

Há aqui uma lógica de ferro que dispensa diploma. Se um homem precisa do favor político de duas superpotências para sustentar o próprio negócio, esse homem não é livre nem faz negócio livre. É sócio. E sócio menor, aliás, porque quem manda na sociedade é quem controla o monopólio da força, não quem aparece na capa da revista. O rodopio com o celular é o gesto exato do cortesão deslumbrado que confunde acesso ao trono com posse do trono. Luís XIV deixava nobres dormirem em Versalhes para humilhá-los enquanto agradecidos. A técnica não mudou, só trocou o palácio.

E enquanto o filminho roda, o cidadão comum, esse anônimo que ninguém entrevista, paga a festa em três moedas distintas. Paga em imposto, que vira subsídio para a fábrica de carro elétrico que ele jamais comprará. Paga em inflação, porque o banco central imprime para sustentar a farra de crédito barato que financia o aventureiro. E paga em liberdade, porque cada acordo fechado naquele salão fortalece um pouco mais o consenso global de que tecnologia, vigilância e Estado forte são trindade necessária, e não as três cabeças do mesmo monstro. O cara filma sorrindo; quem é filmado, lá na ponta, é você.

O mais saboroso é o coro internacional aplaudindo a cena como se fosse audácia juvenil, ousadia disruptiva, espírito livre. Não é nada disso. É deferência. É o súdito novo rico mostrando ao patrão antigo que aprendeu o protocolo. Quem é genuinamente livre não precisa filmar o teto do salão imperial, porque não precisa pisar lá dentro para fechar negócio. Quem filma é quem está impressionado. E quem está impressionado já perdeu metade da negociação antes de sentar à mesa.

Sobra a pergunta de sempre, aquela que desmonta qualquer encenação por mais luxuosa que seja. Quem paga? O contribuinte ocidental espremido, o trabalhador chinês sem direito de greve, o consumidor do mundo inteiro pagando preço inflado por crédito artificial. Quem recebe? O bilionário turista, os burocratas de gravata e fardão dos dois lados, e a casta de intermediários que vive de traduzir o tapinha nas costas em cifra de nove zeros. O resto é folclore para entreter a plebe enquanto a conta chega pelo correio, disfarçada de imposto, de boleto, de prestação.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.