Cinquenta e quatro quilômetros de litoral, falésias que mudam de cor conforme o sol caminha, fontes de água doce brotando de rochas a poucos metros do mar. Beberibe, no Ceará, a 85 quilômetros de Fortaleza, é o tipo de lugar que dispensa adjetivo e deveria dispensar, sobretudo, a tutela de quem nunca plantou um grão de areia naquelas dunas. A natureza levou milênios para esculpir aquele labirinto de paredões multicoloridos. O aparato estatal levou algumas décadas para cercar tudo com placas, taxas, regulamentos e a promessa solene de que, sem a mão iluminada do poder público, o brasileiro comum transformaria aquilo num depósito de lixo. A premissa é sempre a mesma: você é incapaz de cuidar do que é bonito, então entregue a administração a quem é incapaz de cuidar de qualquer coisa.

Os 31 hectares de área protegida são apresentados como troféu de consciência ambiental. Convém perguntar: protegidos de quem? Do pescador que vive ali há gerações e agora precisa de autorização para atravessar a própria praia? Do pequeno empreendedor que poderia montar uma pousada decente, mas esbarra em licenciamentos que duram mais do que mandato de senador? A proteção ambiental, quando operada pelo Estado, funciona como cerca de fazendeiro que não comprou a terra. Delimita, proíbe, cobra, e no fim do expediente vai embora de carro oficial, deixando o morador local na mesma miséria de sempre, agora acrescida da proibição de usar o próprio quintal. Quem paga a conta da preservação é sempre quem mora perto; quem recebe o dividendo político é sempre quem mora longe, em Brasília, assinando decretos com caneta importada.

Não se trata de defender a destruição da paisagem. Qualquer proprietário minimamente racional cuida melhor do próprio jardim do que um burocrata cuida de um parque que não é dele. A história inteira da tragédia dos bens comuns ensina exatamente isso: o que é de todos não é de ninguém, e o que não é de ninguém apodrece sob gestão de comitê. Se aquelas falésias tivessem dono, alguém com nome, sobrenome e escritura, cada grão de areia colorida valeria ouro, e o incentivo para preservar seria tão natural quanto o incentivo para não atear fogo na própria casa. Mas o Estado prefere a versão em que ele é o único adulto responsável no recinto, e o cidadão é uma criança com fósforo na mão. Essa versão, convenientemente, justifica orçamento, cargo comissionado e viagem de fiscalização com diária.

Repare no mecanismo. A matéria original descreve Beberibe como alternativa a Maragogi, como se o turista precisasse de permissão jornalística para descobrir que o Ceará tem praia bonita. O que ninguém conta é a engrenagem por trás do destino turístico no Brasil. O governo estadual investe dinheiro de imposto em marketing, atrai turista, o turista chega e encontra estrada esburacada, sinalização precária e infraestrutura que envergonharia uma cidade do interior da Romênia nos anos noventa. Mas a verba de promoção turística saiu, o contrato de publicidade foi assinado, a agência de comunicação do amigo do secretário faturou, e as falésias continuam ali, lindas, indiferentes à mediocridade de quem pretende administrá-las. O dinheiro público entra pela porta da frente do turismo e sai pela porta dos fundos do compadrio. Sempre foi assim.

Beberibe é linda porque a natureza não precisa de licitação para trabalhar. As doze cores daquelas falésias não passaram por aprovação de comissão técnica. A água doce que brota das rochas não consultou o plano diretor municipal. Tudo o que há de belo naquele lugar existe apesar do Estado, não por causa dele. E tudo o que há de precário, a estrada ruim, o esgoto a céu aberto na cidade vizinha, a falta de segurança, existe precisamente por causa dele. O turista vai, tira foto, posta na rede social, e volta para casa achando que viu o melhor do Brasil. Viu o melhor da geologia. Do Brasil mesmo, da parte que depende de gente com CNPJ público, viu o de sempre: o mínimo possível pelo máximo de arrecadação. Quem paga é você, no imposto embutido na passagem, na taxa de preservação, no pedágio disfarçado. Quem recebe, bem, quem recebe nunca aparece na foto com as falésias ao fundo.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.