Você passa cloro no vaso sanitário como se estivesse exorcizando o diabo, mas esfrega o prato com uma esponja amarela que tem mais colônias microbianas do que um laboratório de pesquisa mal administrado. A contradição é cômica e didática: o lugar que todo mundo imagina como o epicentro da imundície doméstica, a privada, costuma ser comparativamente mais limpo que a pia, a tábua de carne, o pano de prato e, campeã absoluta, a humilde esponja de louça. Estudos sérios já mostraram que um único centímetro quadrado daquele retângulo poroso pode abrigar bilhões de bactérias, número que faz o assento sanitário parecer ambiente cirúrgico.

A explicação é prosaica e dispensa conferência internacional. Esponja vive úmida, retém resíduo orgânico, fica em temperatura ambiente e é reaproveitada por semanas. Ou seja, é um hotel cinco estrelas para E. coli, salmonela, Campylobacter e companhia. O vaso sanitário, ao contrário, é descarregado com água várias vezes ao dia, costuma receber desinfetante e raramente encosta em alimento. O problema, portanto, nunca foi a sujeira visível, foi sempre a sujeira invisível que a mente preguiçosa se recusa a enxergar. As coisas são o que são, não o que a propaganda decidiu que sejam.

Aqui entra a parte saborosa. O país possui uma das estruturas regulatórias sanitárias mais infladas do planeta, com agência federal, vigilâncias estaduais, municipais, conselhos profissionais e um exército de fiscais que vivem de multar padaria por causa da cor do avental do padeiro. Todo esse aparato, financiado pelo seu imposto, jamais foi capaz de comunicar ao cidadão comum a informação mais básica e mais barata de higiene doméstica: troque a esponja toda semana, ferva o pano de prato, higienize a tábua de corte. Gastam milhões com campanha institucional sobre dengue em novembro e se omitem sobre o que mata silenciosamente na cozinha o ano inteiro.

Não é por acaso. Campanha de higiene doméstica não gera contrato, não justifica cargo comissionado, não vira evento em hotel cinco estrelas com diária paga pelo contribuinte. Já regulação de rótulo, de embalagem, de composição de produto de limpeza, isso sim rende. Cada nova exigência empurra o pequeno fabricante para fora do mercado e deixa o oligopólio agradecido, porque só a indústria grande tem departamento jurídico para cumprir o cipoal de normas. O consumidor paga mais caro pelo mesmo detergente e ainda engole a narrativa de que está sendo protegido. Quem paga é você, quem recebe são os três ou quatro conglomerados que dominam a prateleira do supermercado.

Há uma lição antiga nisso tudo, que qualquer matriarca analfabeta do interior conhecia melhor que doutor diplomado em saúde pública. Cozinha limpa se faz com água fervente, sabão, sol e substituição frequente do que encharca. Não precisa de portaria, não precisa de selo, não precisa de tecnocrata. Precisa de responsabilidade individual, aquela palavrinha que o Estado moderno trabalha diuturnamente para apagar do vocabulário, porque cidadão responsável por si mesmo é cidadão que não precisa de cidadão empregado do governo para cuidar dele. A ignorância organizada sobre a esponja é sintoma de uma pedagogia maior: fazer você temer o lugar errado enquanto o perigo real cresce embaixo do seu nariz, subsidiado pela sua desatenção.

O silogismo é constrangedor de tão simples. Se o órgão público existe para proteger a saúde do cidadão, e se o cidadão adoece mais pela esponja da cozinha do que pela privada, então o órgão deveria falar incansavelmente sobre a esponja. Como fala sobre tudo menos sobre a esponja, conclui-se que ele não existe para proteger a sua saúde, existe para proteger a si mesmo, seu orçamento e seus amigos de lobby. Da próxima vez que um fiscal aparecer interditando lanchonete de bairro por causa de azulejo trincado, olhe para a sua própria pia e ria. O rei está nu, e cheira mal.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.