O presidente da República descobriu que cearenses passam no ITA. Que revelação. Estudantes do Nordeste conquistando vagas em instituições de elite não é novidade para ninguém que acompanhe os resultados há pelo menos duas décadas, mas para o chefe do Executivo, que concedeu entrevista a um seleto grupo de veículos que funcionam como assessoria de imprensa voluntária, a notícia serviu como pretexto perfeito para aquele exercício favorito de todo governante: apropriar-se do esforço alheio. "Não é só cabeça grande", disse, com a graça retórica de quem confunde elogio com campanha eleitoral. Os meninos estudaram, os meninos passaram, e o presidente aparece para a foto como se tivesse corrigido as provas.
Convém observar o cenário com um mínimo de honestidade intelectual. O ITA é uma instituição federal, sim, mas sua excelência vem justamente do fato de que opera numa lógica radicalmente diferente da maioria das universidades públicas brasileiras. Vestibular duríssimo, currículo inflexível, meritocracia como critério único de permanência. Ou seja, tudo o que o establishment educacional progressista passa a vida tentando desmontar em nome da "democratização do acesso". Os mesmos que querem cotas para tudo, que acham prova objetiva excludente e que tratam excelência acadêmica como código para privilégio, agora querem bater palma quando o sistema meritocrático funciona. A contradição não é acidental; é estrutural.
E aqui mora a pergunta que ninguém faz nessas entrevistas de sofá: se o governo federal é tão decisivo para o sucesso educacional desses jovens, por que a esmagadora maioria das escolas públicas do país continua sendo um depósito de gente sem futuro? O Brasil gasta por aluno de ensino básico valores que, corrigidos e comparados, não são desprezíveis, e o resultado é um festival de analfabetismo funcional. O dinheiro entra pelo Ministério da Educação, percorre secretarias, alimenta sindicatos de professores que fazem greve com regularidade de estação do ano, irriga ONGs pedagógicas de amigos do rei, e no fim da linha o aluno mal sabe ler o próprio nome. Os cearenses que passaram no ITA passaram apesar do sistema, não por causa dele. Muitos deles vieram de escolas militares, de projetos privados de preparação, de famílias que fizeram sacrifícios que nenhum burocrata de Brasília é capaz de mensurar.
O detalhe que ninguém destaca é a escolha do palco. O presidente não deu essa declaração em coletiva aberta, com jornalistas de todos os veículos. Escolheu a dedo três plataformas que funcionam, na prática, como departamento de marketing do Planalto. É a velha técnica: você controla o meio, controla a mensagem. Não há pergunta incômoda, não há contraditório, não há risco de alguém levantar a mão e dizer "presidente, mas e os bilhões do FUNDEB que somem todo ano?". É teatro, e teatro barato. O contribuinte financia a estrutura que permite a entrevista, financia os veículos via publicidade estatal, e no final assiste ao presidente se congratular por algo que não fez.
O que irrita não é o elogio aos estudantes, que de fato merecem reconhecimento. O que irrita é a mecânica automática de apropriação. Todo governo faz isso: quando o cidadão prospera, o Estado aparece para reivindicar crédito; quando o cidadão fracassa, a culpa é do mercado, da herança maldita, do imperialismo ou de qualquer fantasma conveniente. É um jogo de cara eu ganho, coroa você perde. Os jovens cearenses que entraram no ITA são a prova viva de que talento individual, esforço familiar e disciplina pessoal produzem resultados que nenhum programa governamental consegue replicar em escala. Se o governo realmente quisesse multiplicar esses casos, bastaria sair do caminho, devolver ao contribuinte o dinheiro que consome em burocracia educacional inútil e deixar que escolas livres, competitivas e responsáveis diante dos pais, não diante do MEC, fizessem o trabalho. Mas isso, evidentemente, não rende entrevista em veículo amigo nem manchete para o clipping presidencial. O mérito é dos que estudaram. A conta, como sempre, é de quem paga imposto.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.