O presidente acordou com uma revelação. Trabalhar seis dias e descansar um, disse ele em tom de quem descobriu uma injustiça cósmica, "não tem o menor sentido". Dito assim, parece que a escala 6x1 é uma anomalia histórica inventada por algum capitalista sádico numa tarde de mau humor. A realidade, que raramente frequenta os palácios, é que esse regime existe porque as partes envolvidas, patrão e empregado, chegaram a um acordo dentro das condições que o próprio Estado criou com sua colcha de retalhos trabalhista, previdenciária e tributária. Mas detalhes assim estragam o discurso.

Sigamos o dinheiro, que é o único fio que nunca mente. A aprovação de uma nova regulação sobre jornada de trabalho não cai do céu por bondade presidencial: ela tem destinatários precisos. As centrais sindicais, que vivem de negociar acordos coletivos e de sugar contribuições obrigatórias da folha de pagamento, ganham novo músculo nessa disputa. Mais um dia de folga obrigatório significa mais uma variável a ser "negociada", mais uma cláusula nos acordos, mais um motivo para o trabalhador precisar de um representante que ele nunca elegeu individualmente mas que lhe desconta a mensalidade com a pontualidade de um credor privado. A reforma trabalhista de 2017 enfraqueceu esse arranjo. O que vem por aí é a revanche.

Há uma lógica impecável no argumento presidencial, desde que você aceite a premissa. Se trabalhar menos é sempre melhor, por que parar em dois dias de folga? Por que não três, quatro, a semana inteira? A resposta, que o bom senso fornece em dois segundos, é que produção e renda são faces da mesma moeda: quem produz menos, em regra, ganha menos, ou gera menos valor para sustentar os que ao redor dependem desse trabalho. A menos, claro, que alguém pague a diferença. E é aqui que a mágica se desfaz, porque esse "alguém" tem nome e sobrenome: é o empresário que contrata, o consumidor que paga mais caro pelo produto, ou o contribuinte que financia o subsídio que viabilizará a nova regra. O presidente nunca menciona esse personagem. Ele estraga a narrativa.

A história tem fartura de exemplos sobre o que acontece quando o poder político decide, de cima para baixo, como o trabalho deve se organizar. A França implantou a semana de 35 horas em 2000 com festa, coros de aprovação e a certeza de que o desemprego cairia porque as empresas seriam obrigadas a contratar mais gente para cobrir as horas que os trabalhadores não fariam mais. O que se viu foi o inverso: as empresas automatizaram o que podiam, transferiram o que não podiam e empurraram parte da produção para fora do país. O desemprego francês ficou entre os mais altos da Europa por anos. A realidade não leu o projeto de lei.

O trabalhador brasileiro real, aquele que pega dois ônibus antes das seis da manhã e volta depois das oito da noite, tem problemas que um dia a mais de folga não resolve. Ele paga alíquota efetiva de imposto de renda que envergonharia um contribuinte de classe média europeia. Ele financia uma Previdência que provavelmente não lhe pagará o que prometeu. Ele vê a inflação corroer o salário que levou um ano para negociar. Nenhum desses problemas entrou na lista de prioridades urgentes do governo. Eles não rendem palanque.

No fim, a conta é simples e implacável: o Estado não produz riqueza, ele a redistribui, e sempre com atrito, sempre com perda, sempre com um intermediário bem posicionado levando sua comissão. Quando um presidente anuncia que vai te dar mais um dia de descanso, alguém está pagando por esse presente. Esse alguém vai repassar o custo ou vai fechar a porta. O trabalhador que deveria descansar vai descobrir, mais cedo ou mais tarde, que o presente veio com uma nota fiscal que ele não viu na hora do anúncio. Quem paga e quem recebe: essa pergunta o comunicado oficial nunca responde. O Algoz responde.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.