O chanceler iraniano abriu a boca nesta segunda-feira e disse, com a naturalidade de quem comenta o tempo, que Teerã não tem plano algum para uma próxima rodada de conversas com os Estados Unidos. Pronto. A frase, curta e sem cerimônia, desmonta meses de encenação em que ministros circulam por hotéis caríssimos em Omã, Genebra e Doha fingindo que a diplomacia é um processo delicado de paciência oriental, quando na verdade é uma indústria. E como toda indústria, tem fornecedor, tem cliente e tem quem pague a nota no fim do mês.
Convém lembrar o óbvio que ninguém diz em voz alta. Negociação internacional de sanção e programa nuclear não é reunião de vizinhos trocando xícara de açúcar. É um mercado sofisticado em que burocratas de alto escalão viajam em primeira classe, diplomatas embolsam diárias em dólar, think tanks de Washington vivem de relatório sobre Golfo Pérsico, empresas de lobby em Dubai faturam contrato de consultoria, e emissoras vendem horas de ansiedade geopolítica para anunciante nenhum reclamar. O impasse é o produto. A resolução seria o fim do emprego de muita gente bem vestida.
Quando o regime dos aiatolás diz que não há plano, ele está basicamente anunciando que vai manter o preço do petróleo inflado pela tensão, que vai continuar vendendo barril no mercado cinza para chineses e indianos com desconto patriótico, e que vai usar cada manchete ocidental como combustível doméstico para sufocar dissidente interno. A teocracia persa aprendeu, depois de quase meio século encastelada, que inimigo externo é o melhor vacinador contra revolta interna. Cada frase mal traduzida de um secretário americano rende um mês de sobrevida para o aparato repressor. E olhe que rende bem.
Do outro lado, a República que se veste de império age pelo mesmo manual, apenas com melhor marketing. O complexo industrial que vive de tensão no Oriente Médio não lucra quando há paz; lucra quando há ameaça plausível. Cada porta aviões deslocado para o Golfo é contrato renovado de manutenção, cada sanção recalibrada é exército de advogado faturando hora, cada embargo é oportunidade de lobby para criar a exceção do seu cliente. Os dois governos, aparentemente adversários, operam uma sociedade tácita de benefício mútuo em cima do contribuinte. O americano paga imposto para financiar a ameaça, o iraniano paga inflação para financiar a resposta, e ambos aplaudem como se fosse um campeonato.
A lógica é simples e antiga como os impérios mesopotâmicos que povoaram aquela mesma geografia. Onde existe um monopolista da violência de um lado e outro monopolista da violência do outro, o cidadão comum é apenas a pastagem onde os dois rebanhos vão se alimentar. Chame de jogo de soma zero entre Estados, e verá que na verdade é jogo de soma positiva para os Estados e de soma profundamente negativa para quem acorda cedo, trabalha e paga a conta. O curdo que explode, o persa que é enforcado por protesto, o soldado americano que volta em caixão coberto pela bandeira: estes são os que pagam. Os que recebem usam gravata de seda italiana.
Diante disso, a resposta saudável do observador não é escolher time. Não é torcer pela diplomacia do Departamento de Estado nem pela altivez dos turbantes. É reconhecer que, quando duas instituições coercivas anunciam que vão continuar brigando, elas estão anunciando apenas que vão continuar vivendo do seu suor. A mesa de negociação vazia não é tragédia para eles; é planilha lucrativa. E a pergunta honesta, a única que interessa, continua sendo aquela que nunca aparece no noticiário solene das seis da tarde: quem exatamente paga e quem exatamente recebe por este espetáculo que insistem em chamar de política externa?
Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.