Uma garrafa PET, um pouco de açúcar fermentado, fermento biológico e água morna. Isso é tudo. Não há patente, não há multinacional, não há registro sanitário obrigatório, não há imposto de importação embutido no preço, não há especialista credenciado para autorizar o uso. Você faz em casa, em dez minutos, e o resultado supera qualquer aerossol industrializado vendido a trinta reais na farmácia com nome pomposo e embalagem de plástico colorido. A armadilha funciona porque imita exatamente o que as moscas buscam: fermentação, calor, odor de decomposição. Elas entram atraídas pelo que parece ser alimento e descobrem, tarde demais, que é uma câmara sem saída.
Qualquer pessoa com dois dedos de testa e paciência para ler um parágrafo consegue montar isso. E é precisamente aqui que começa o escândalo silencioso que nenhum repórter de Brasília vai cobrir: soluções simples, baratas e ao alcance de qualquer cidadão são o pesadelo de qualquer burocracia bem alimentada. O Estado moderno não foi construído para resolver problemas. Foi construído para administrá-los. Problema resolvido é verba cortada, cargo extinto, justificativa apagada. A mosca controlada pelo cidadão autônomo é uma mosca que não gerou licitação, não alimentou contrato, não justificou o Programa Nacional de Vigilância Entomológica com dotação orçamentária de quarenta e dois milhões de reais aprovada em regime de urgência numa sexta-feira de recesso.
A lógica da armadilha caseira é a lógica da liberdade: você identifica o problema, usa o que tem, resolve com o próprio esforço e não pede permissão a ninguém. É exatamente o oposto da lógica redistributiva que governa o setor público brasileiro, onde o problema precisa primeiro ser catalogado por um comitê, depois analisado por uma comissão, depois submetido a consulta pública, depois licitado para uma empresa que vai terceirizar para outra empresa que vai terceirizar para um servidor que vai procrastinar até o fim do exercício fiscal e devolver o saldo sem gastar. A mosca, enquanto isso, continuou voando. O ciclo recomeça no ano seguinte com verba dobrada e relatório de "aprendizados institucionais".
Mas há algo mais profundo aqui, e seria desonesto não dizê-lo. A armadilha de garrafa PET funciona porque entende a natureza da mosca, não porque tenta mudá-la. O inseto é atraído pelo que é, não pelo que deveria ser. Toda a eficácia do dispositivo depende de conhecer o comportamento real do animal e usá-lo contra ele. Povos inteiros foram capturados com a mesma técnica aplicada à política: coloca-se o cheiro de benefício, de subsídio, de gratuidade, de "direito conquistado", e as massas entram pela gargala como moscas, encantadas pelo odor de fermentação que confundem com alimento. Quando percebem que o fundo do recipiente é uma política fiscal insustentável, já estão presas pela dependência que o próprio sistema criou, incapazes de voar para fora porque esqueceram que um dia souberam voar por conta própria.
A solução está na mesa, ou melhor, na pia da cozinha. Garrafa, açúcar, fermento, água. Nenhuma lei federal autoriza ou proíbe. Nenhum engenheiro ambiental precisa assinar. Nenhuma taxa de fiscalização incide sobre o ato de encher a garrafa. É livre porque é simples, e é simples porque resolve de verdade. O paradoxo grotesco da modernidade regulatória é que quanto mais eficaz uma solução, menor a probabilidade de ela receber apoio institucional, porque a eficácia dispensa a instituição. A armadilha perfeita para o cidadão seria aquela que nunca funciona completamente, que sempre exige uma visita técnica, um produto complementar, um serviço de manutenção, uma renovação anual. Perfeita para quem a vende. Péssima para quem compra. Idêntica, em estrutura, a qualquer serviço público que você possa nomear.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.