A cena beira o surreal, mas é rotina em 2026. De um lado do tabuleiro, iranianos e emiradenses sentam para negociar o que fazer com o Estreito de Ormuz, aquele funil de água onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial todo santo dia. Do outro lado, operadores em Nova York apertam o botão de compra em ETFs de inteligência artificial que subiram 40% no ano, embriagados com a ideia de que o futuro é feito de silício e prompts. Ninguém parece notar que o silício precisa de energia, a energia precisa de petróleo, e o petróleo precisa passar por um corredor de 33 quilômetros de largura vigiado por lanchas rápidas iranianas. A desconexão entre o que se vê nos telões da bolsa e o que não se vê nos radares do Golfo Pérsico é o tipo de piada que a história adora contar antes de cobrar o ingresso.
Vale a pena olhar quem ganha o quê nessa mesa. O Irã senta para negociar porque descobriu, depois de décadas de sanções, que ameaçar fechar Ormuz vale mais como carta política do que como ato executado. Os Emirados negociam porque, apesar de terem construído oleodutos alternativos, sabem que confiança de comprador asiático é bem escasso. E os Estados Unidos, que deveriam ser o fiel dessa balança, estão distraídos vendendo a narrativa de que a Nvidia salvará a civilização ocidental. Enquanto isso, a China compra petróleo iraniano com desconto, os russos fazem triangulação via portos amigos, e o dólar segue sendo impresso para financiar uma bolha tecnológica que depende, ironicamente, de energia barata que ninguém garante mais.
Aqui é onde a lógica do bolso denuncia a burrice do consenso. Um fundo temático de IA que sobe 40% em doze meses não está precificando produtividade real, está precificando liquidez artificial. Os bancos centrais mantêm juros reais negativos em boa parte do mundo desenvolvido, o dinheiro barato precisa ir para algum lugar, e a palavra mágica do momento é inteligência artificial. Se amanhã fosse fusão a frio, seria fusão a frio. O detalhe cruel é que uma disrupção de duas semanas em Ormuz jogaria o barril para 150 dólares, mataria a margem dos data centers que consomem eletricidade como pequenos países, e transformaria em pó boa parte desses ganhos de 40%. O mercado está longo em algoritmo e curto em geografia, e geografia sempre cobra a fatura.
Existe um padrão histórico que se repete com a pontualidade de relógio suíço. Toda vez que a humanidade se convence de que descobriu o motor perpétuo do crescimento, seja a ferrovia americana em 1870, o rádio em 1929, as pontocom em 2000 ou a internet das coisas em 2015, aparece um choque físico do mundo real para lembrar que civilização não roda no vácuo. Precisa de energia, de rotas, de tratados e de gente disposta a defender esses tratados. Quando o pêndulo do otimismo tecnológico está no extremo, o pêndulo geopolítico costuma estar carregando o próximo golpe. Quem se lembra disso protege o patrimônio. Quem esqueceu paga a fatura na próxima manhã de segunda.
O que mais irrita nesse enredo é o silêncio dos analistas de terno bem cortado que apareceram na televisão dizendo que o petróleo é coisa do passado, que a transição energética resolveria tudo, e que geopolítica virou tema de podcast nostálgico. Basta uma reunião entre dois chancelários em Abu Dhabi para que a fantasia se dissolva. A verdade é que o mundo continua rodando na mesma matriz suja e complicada de sempre, só que agora com uma camada extra de ilusão financeira em cima. Quem confunde narrativa com realidade acaba comprando o topo e vendendo o fundo, como sempre foi.
A lição que ninguém quer ouvir é a mais simples. Riqueza não se cria com clique de mouse, se cria com produção real, contratos respeitados e liberdade para empreender. Quando um governo distante decide o preço do dinheiro, quando uma agência regulatória define quem pode ou não hospedar servidores, quando um regime teocrático controla o corredor por onde passa a energia do planeta, nada disso é livre mercado, é xadrez de poder disfarçado de economia. A alta de 40% em fundos de IA e a mesa de negociação em Ormuz são o mesmo fenômeno visto de ângulos opostos. Uma é a euforia da tela, outra é a gravidade do território. E gravidade, como todo bom investidor sabe, sempre vence no longo prazo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.