Há uma observação elegante que passa despercebida na maioria das reportagens sobre tecnologia e conforto digital: ninguém votou nisso. Nenhuma assembleia constituinte deliberou sobre o aplicativo que te poupa quarenta minutos na fila do banco. Nenhum ministério assinou portaria determinando que o pagamento por aproximação deveria existir. Nenhum fundo público foi criado para financiar a notificação automática que te avisa quando seu pedido saiu para entrega. Tudo isso aconteceu porque alguém, em algum momento, percebeu que você estava disposto a pagar, ou a usar gratuitamente em troca dos seus dados, por uma vida com menos fricção. O mercado, esse mecanismo que os bem-intencionados amam odiar, resolveu silenciosamente o que séculos de gestão pública não conseguiram: poupar o seu tempo.
Pense no que representava, no século XIX, receber uma correspondência com urgência. A Inglaterra vitoriana, para resolver o problema da comunicação lenta e cara, inventou o Penny Post, e o resultado foi uma explosão de trocas, negócios e cultura. Não foi filantropia estatal; foi o reconhecimento de que, quando o custo de transação cai, a vida humana floresce. O que está acontecendo hoje com o conforto digital não é diferente em natureza, só em velocidade. Cada pequena automação, cada interface que elimina um passo desnecessário, cada senha que não precisa mais ser digitada é uma forma microscópica de liberação. E o interessante é que essa liberação está acontecendo no exato momento em que o Estado brasileiro multiplica exigências, cadastros, certificações, declarações e validações. Enquanto o mercado remove atrito, a burocracia o produz industrialmente. Essa contradição não é acidental; é estrutural.
A narrativa dominante insiste em tratar o conforto tecnológico como se fosse uma espécie de conquista social, algo que a "sociedade" alcançou coletivamente, como se houvesse uma mão invisível coletiva escolhendo o que seria conveniente para todos. Mas as coisas são o que são, não o que a narrativa quer que sejam. O aplicativo que você usa todos os dias foi construído por alguém que precisava que você o usasse, que dependia da sua satisfação para sobreviver, que foi destruído pelo mercado quando não entregou o suficiente e substituído por outro melhor. Esse processo brutal, impessoal e extraordinariamente eficiente não tem equivalente no setor público. Quando o site da Receita Federal trava na época da declaração do imposto de renda, ninguém perde o emprego. Quando o portal de serviços do governo demora doze segundos para carregar uma página, nenhum gerente é chamado à sala da diretoria. A ausência de penalidade pela ineficiência é exatamente o que a torna permanente.
Siga o dinheiro, sempre. O conforto digital é rentável porque você, ao economizar tempo, produz mais, consome mais, vive melhor. O empresário captura parte desse valor em troca de ter criado a ferramenta. Essa é uma troca voluntária, da qual você pode sair a qualquer momento. Compare com a tributação que financia os sistemas públicos de "modernização digital", esses projetos bilionários que custam fortunas, atrasam anos, entregam metade do prometido e nunca são cancelados porque ninguém tem incentivo para cancelá-los. O Tribunal de Contas da União está repleto de auditorias sobre sistemas de tecnologia governamental que consumiram centenas de milhões e não funcionam. Onde está a indignação? Onde está a cobertura? A imprensa que celebra o conforto digital das startups é a mesma que não acompanha o desperdício digital do Estado com atenção equivalente. Essa assimetria não é coincidência; é preferência ideológica disfarçada de pauta.
O que a reportagem celebra como "necessidade" é, na verdade, o resultado de um processo que acontece apesar do Estado, não por causa dele. A carga tributária que engole mais de um terço do PIB nacional financia, entre outras coisas, a digitalização lenta e ineficiente de serviços que o setor privado já resolveu há uma década. Enquanto isso, as empresas que desenvolvem essas ferramentas de conforto digital pagam tributos que custeiam a concorrência pública que nunca entrega, nunca falha com consequência e nunca melhora sob pressão. É uma espoliação dupla: você paga para ter um serviço público ruim e ainda compra, por fora, o serviço privado que funciona. Chamar isso de "conquista" é generoso. O nome certo é adaptação racional de quem aprendeu, na prática, que o Estado não vai resolver e que o mercado, quando razoavelmente livre, sempre encontra o caminho.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.