Existe uma crueldade irônica no destino dos servidores do poder que só se revela quando o poder os abandona. Alexandre Ramagem passou anos à frente da Agência Brasileira de Inteligência, o órgão que em tese sabe tudo sobre todos, que mapeia movimentos, rastreia comunicações e identifica ameaças. O contribuinte pagou seu salário, seu gabinete, sua estrutura, seus subordinados. E quando chegou a hora em que todo esse conhecimento operacional seria mais útil, quando a máquina virou contra ele, o ex-espião-chefe foi capturado em Orlando pelo equivalente americano da Polícia Federal de Imigração por uma irregularidade migratória. Não por uma operação de inteligência sofisticada. Por papelada.
A cena merece ser saboreada com calma. O homem que dirigia o aparato de vigilância do Estado brasileiro, que tinha acesso às entranhas do sistema que monitora cidadãos comuns, não conseguiu resolver um problema de visto. Enquanto isso, José Dirceu, condenado duas vezes e que passou anos sendo o símbolo de tudo que o bolsonarismo dizia combater, aparece na imprensa para declarar, com aquele prazer contido de quem conhece a roda da fortuna, que nem Trump está protegendo os aliados. É a raposa comentando a queda do lobo. Duas criaturas do mesmo zoológico, separadas apenas pela cor da fantasia.
Porque é preciso dizer o que ninguém diz com clareza: Ramagem e Dirceu são, na sua essência funcional, o mesmo fenômeno. Ambos construíram carreiras dentro da estrutura do Estado, utilizando seus recursos, sua autoridade delegada e sua violência institucionalizada para fins que oscilam entre o questionável e o criminoso, dependendo de quem está narrando. Ambos acreditaram, com fé de converso, que o poder que os sustentava era permanente, que as alianças eram reais e que o aparato que serviam os protegeria quando necessário. Ambos erraram o cálculo. A diferença é que Dirceu passou pelo calvário antes e agora tem o luxo de observar o próximo na fila.
A fantasia de que Washington serviria como refúgio para fugitivos políticos brasileiros alinhados com Trump revela uma ingenuidade que beira o patético. O governo americano não funciona como uma fraternidade ideológica transnacional. Funciona como todo Estado funciona: pelos seus próprios interesses, pela sua própria burocracia e pelos seus próprios acordos diplomáticos. A simpatia de um presidente americano por um movimento político estrangeiro não cancela os tratados de extradição, não suspende a autoridade do ICE e certamente não faz um agente de imigração olhar para o lado quando o visto não está em ordem. Quem esperava proteção em troca de afinidade ideológica confundiu um discurso de campanha com um contrato de serviços.
Segue-se a pergunta que nunca envelhece: quem pagou por tudo isso? O contribuinte brasileiro financiou a carreira de Ramagem como funcionário público, financiou a ABIN que ele dirigiu, financiou o mandato de deputado que ele exerceu e agora financia o processo judicial que corre contra ele. O contribuinte americano financia o ICE que o prendeu. No fim da cadeia, dois tesouros nacionais movimentados, uma quantidade considerável de advogados bem remunerados e, no centro de tudo, um homem que comandou um dos mais poderosos instrumentos de vigilância do país e não previu que ficaria sem proteção quando fosse mais necessária. A inteligência, ao que parece, tem limites bem definidos. Eles costumam coincidir com os limites da utilidade política de quem a exerce.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.