A Nestlé anunciou que vai ampliar a compra de cacau no Brasil, e a notícia foi tratada em algumas manchetes como se fosse um gesto de simpatia diplomática da multinacional pelo produtor baiano. Não é. É sobrevivência empresarial diante de um colapso silencioso na África Ocidental, onde décadas de intervenção estatal, marketing boards, controle de preço na porteira e fungo em pé de árvore reduziram a colheita a farrapos. Costa do Marfim e Gana, que juntos respondem por cerca de dois terços do cacau do planeta, entregaram safras minguadas nas últimas temporadas, e o preço da amêndoa nas bolsas de Londres e Nova York explodiu a patamares que fariam corar um trader de petróleo em 1979. Quando a tonelada do cacau supera a do cobre, alguma coisa está profundamente errada, e essa coisa raramente é o clima sozinho.

O que ninguém quer dizer em voz alta é que o cacau africano não quebrou apenas por causa da vassoura-de-bruxa ou do swollen shoot. Quebrou porque governos que se meteram a fixar o preço pago ao produtor, a monopolizar a exportação e a taxar a cadeia até o osso simplesmente sufocaram o incentivo para replantar, tratar a lavoura e investir em produtividade. O agricultor de Daloa recebe uma fração ridícula do que a barra de chocolate vale na prateleira de Zurique, e o resto some numa caixa preta chamada Conselho do Café e do Cacau. Enquanto isso, o produtor do sul da Bahia e do Pará, apesar de todo o cipoal tributário e da herança triste da lavoura cabocla dos anos 90, opera num ambiente comparativamente mais livre para negociar preço, escolher comprador e reinvestir. E adivinhe onde a Nestlé foi buscar o grão.

Vale seguir a trilha do dinheiro com calma. A multinacional não está fazendo caridade com o cacauicultor baiano; está comprando previsibilidade num mundo em que a promessa de rastreabilidade europeia, aquele regulamento antidesmatamento de Bruxelas que finge combater a devastação enquanto na prática cria barreira comercial contra o produtor pobre, tornou o cacau africano um pesadelo jurídico. O Brasil, que reconstruiu a produção com clones resistentes e sistemas agroflorestais no cacau-cabruca, virou, quase por acidente, o fornecedor que consegue apresentar documento sem cair na malha fina do burocrata belga. Traduzindo em bom português, a Europa criou uma regulação para punir a África, e o Brasil, sem pedir licença, colheu o dividendo.

Aqui mora a lição que os defensores do planejamento se recusam a aprender há dois séculos. Ninguém sentou numa sala em Genebra e desenhou uma cadeia global de suprimento de cacau reorientada para o Atlântico Sul. Não houve reunião de cúpula, não houve pacto climático, não houve subsídio milagroso. Houve preço subindo, houve produtor calculando risco, houve comprador procurando origem confiável, houve milhares de decisões individuais tomadas por gente que jamais se encontrou pessoalmente, e o resultado emergiu como sempre emerge nesse tipo de sistema, de baixo para cima, sem maestro. Quando o burocrata olha para isso, vê caos. Quem entende de economia, vê inteligência distribuída funcionando exatamente como deve funcionar.

É óbvio que existe um lado incômodo nessa festa. O produtor brasileiro que hoje é cortejado pela multinacional amanhã pode virar alvo da mesma tesoura regulatória que descarnou o africano, seja por meio de novos tributos federais, seja por caprichos ambientais inventados em Brasília para agradar plateia europeia, seja por alguma genialidade tarifária que o Itamaraty resolva importar do figurino do momento. O cacau baiano tem uma janela, e essa janela se fecha rápido quando políticos descobrem que existe dinheiro rolando na cadeia. A história econômica brasileira é um cemitério de ciclos produtivos estrangulados no auge por ganância fiscal e engenharia social com nome bonito.

Enquanto essa janela estiver aberta, cabe reconhecer o óbvio que a imprensa econômica evita registrar. O que salvou o chocolate mundial da escassez não foi conferência de clima, não foi programa de fomento, não foi ministério. Foi preço livre transmitindo informação, foi propriedade privada permitindo reinvestimento, foi contrato honrado entre partes que se encontram no mercado sem precisar da benção do Estado. O dia em que compreendermos que o mercado é o mais sofisticado sistema de inteligência coletiva já criado pela humanidade, talvez paremos de tentar consertá-lo com receitas do século XIX. Até lá, seguiremos assistindo o óbvio ser tratado como milagre.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.