Benjamin Netanyahu olhou para as câmeras nesta quarta-feira e disse, com a solenidade de quem anuncia uma decisão histórica, que não haverá trégua no Líbano. A condição para qualquer negociação, segundo ele, é o desmantelamento completo do Hezbollah. Ora, exigir o fim do Hezbollah como pré-requisito para a paz é como exigir que o adversário se suicide antes de sentar à mesa. Não é uma posição de negociação, é a recusa deliberada de negociar disfarçada de firmeza. E quem conhece minimamente a gramática do poder sabe que quando um chefe de Estado apresenta condições que sabe serem inaceitáveis, o objetivo nunca foi a paz. O objetivo é a guerra contínua, porque a guerra contínua serve a alguém.

E serve a quem, exatamente? Siga o dinheiro. Netanyahu governa sob uma nuvem de processos por corrupção que faria corar um senador romano da decadência. Cada semana de conflito armado é uma semana em que os tribunais perdem relevância, em que a oposição interna se cala por "patriotismo", em que o orçamento de defesa incha sem escrutínio e em que contratos bilionários de armamento fluem como água para os bolsos certos. O complexo industrial militar israelense não é uma abstração acadêmica, é uma máquina que fatura dezenas de bilhões de dólares por ano, e cada foguete lançado, cada drone ativado, cada operação terrestre é uma linha numa planilha de lucro. A guerra não é o preço da segurança. A guerra é o produto.

Do outro lado do Atlântico, Washington assina os cheques com a pontualidade de um banco suíço. Os Estados Unidos despejam bilhões anuais em ajuda militar a Israel, dinheiro que sai do bolso do contribuinte americano, passa por uma burocracia labiríntica e chega, como por mágica, às contas dos mesmos fabricantes de armas que financiam campanhas eleitorais em Washington. É o ciclo perfeito: o político aprova a verba, a verba compra o armamento, o fabricante devolve parte em doações de campanha, o político aprova mais verba. O contribuinte paga duas vezes, uma em impostos e outra em inflação. E ninguém lhe pergunta se concorda.

Netanyahu disse estar "preparado para qualquer cenário" caso o conflito com o Irã se intensifique. Traduzido do idioma diplomático para o português dos mortais: ele quer que o conflito se intensifique. Um líder que genuinamente buscasse a segurança do seu povo trabalharia para reduzir frentes de combate, não para multiplicá-las. Mas a lógica de quem governa sob ameaça judicial é a lógica do incendiário que se oferece como bombeiro. Quanto maior o fogo, mais indispensável ele se torna. A história está cheia de governantes que transformaram ameaças externas em pretexto para poder interno ilimitado, de faraós a césares, de reis absolutistas a ditadores modernos. O roteiro é sempre o mesmo, só mudam os figurinos e a tecnologia das armas.

O Hezbollah é, sem dúvida, uma organização armada com agenda própria, financiada pelo Irã e com sangue nas mãos. Ninguém em sã consciência o confundiria com um clube de caridade. Mas a questão relevante não é se o Hezbollah é bom ou mau, é se a política de Netanyahu visa de fato neutralizá-lo ou se o mantém como espantalho permanente, útil demais para ser eliminado, perigoso o suficiente para justificar orçamentos infinitos. Todo Estado precisa de um inimigo. Sem inimigo, o aparato de guerra perde razão de existir, os generais perdem prestígio, os fabricantes perdem contratos e os políticos perdem o álibi para governar por decreto. O Hezbollah, para Netanyahu, é menos um problema a resolver do que um ativo a administrar.

Enquanto isso, civis morrem dos dois lados da fronteira, famílias são deslocadas, cidades viram escombros e bilhões que poderiam construir hospitais, escolas ou simplesmente permanecer no bolso de quem os produziu são convertidos em pólvora e aço. A conta, como sempre, é socializada. Os lucros, como sempre, são privados. Netanyahu rejeita a trégua não porque a paz seja impossível, mas porque a guerra é lucrativa demais para quem está no topo da pirâmide. E quando você entende que a pergunta certa nunca é "por que há guerra?" mas sim "quem paga e quem recebe?", o discurso solene do primeiro-ministro deixa de parecer coragem e passa a parecer o que realmente é: um prospecto de investimento escrito com sangue alheio.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.