Trinta e sete milhões de reais. Repita o número em voz alta, devagar, para sentir o peso. Essa é a quantia que teria escorrido das contas de Angélica Gonçalves Pedrosa, uma idosa já falecida em Goiás, direto para as mãos do neto, o zootecnista Fabiano Pedrosa Leão. A Polícia Civil de Goiás investiga o esquema, e os contornos do caso são de uma simplicidade quase ofensiva: alguém com acesso às contas da avó morta tratou de se servir como quem repete o prato no buffet. Não houve gênio do crime, não houve sofisticação de filme. Houve oportunidade, houve ganância, e houve, acima de tudo, um sistema inteiro que dormiu enquanto o dinheiro trocava de dono.
A primeira pergunta que qualquer mente sóbria deveria fazer não é sobre o caráter do neto, que já se revela por si. A pergunta é outra, e muito mais incômoda: como se movimenta R$ 37 milhões de uma conta bancária sem que instituições financeiras, órgãos de fiscalização, cartórios ou quem quer que seja levante uma sobrancelha? Vivemos num país em que o cidadão comum precisa justificar uma transferência de cinco mil reais, em que o COAF, a Receita Federal e os bancos possuem sistemas de monitoramento que, segundo a propaganda oficial, são capazes de farejar centavos suspeitos. Mas trinta e sete milhões saem de contas de uma pessoa morta e o alarme não toca. O leitor pode tirar suas próprias conclusões sobre a serventia real de toda essa engenharia de vigilância financeira que, no discurso, existe para nos proteger, mas na prática só incomoda quem não tem advogado tributarista na agenda do celular.
O caso de Goiás é, na verdade, uma miniatura perfeita de algo muito maior. Toda vez que alguém tem acesso irrestrito ao dinheiro alheio sem prestar contas imediatas, o desfecho é matematicamente previsível. Isso vale para o neto que pilha a herança da avó, vale para o síndico que desvia o fundo de reserva do condomínio, e vale, com perdão da franqueza, para aquela entidade colossal que recolhe compulsoriamente um terço de tudo o que você produz e depois decide sozinha como gastar. A diferença de escala não muda a natureza do ato; muda apenas o número de zeros. O princípio é idêntico: dinheiro sem dono vigilante é dinheiro com destino certo, o bolso de quem está mais perto da chave do cofre.
Fabiano Pedrosa Leão é zootecnista de formação, o que torna a história ainda mais pitoresca. Um homem treinado para cuidar da produção animal resolveu aplicar seus talentos na produção de saques bancários. E fez isso, segundo as investigações, com a tranquilidade de quem acredita que nunca será pego, ou que, se pego, as consequências serão administráveis. Essa confiança não nasce do acaso. Nasce de uma cultura jurídica em que crimes patrimoniais contra a família rendem manchete por duas semanas e, depois, se arrastam por anos em varas cíveis até que todo mundo esqueça. O Brasil é um país em que roubar pouco dá cadeia e roubar muito dá processo. Roubar da própria avó morta, então, corre o risco de dar apenas constrangimento.
O dinheiro, como sempre, conta a história verdadeira. Quem pagou foi uma velha senhora que não pôde se defender nem em vida, nem em morte. Quem recebeu foi quem deveria ter zelado pelo patrimônio dela. E quem assistiu de camarote, sem mover um dedo, foi todo o aparato regulatório que justifica sua existência prometendo impedir exatamente esse tipo de coisa. Se o leitor ainda acredita que a multiplicação de órgãos de controle, normas bancárias e obrigações fiscais serve para proteger o pequeno, olhe para os R$ 37 milhões de Dona Angélica e pergunte-se: proteger quem, de quem, e a que preço?
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.