A CBF divulgou a numeração da Seleção e aconteceu aquilo que, em qualquer outro setor da vida nacional, seria impensável: ninguém disputou a vaga. A camisa 10 foi para Neymar, e o silêncio dos companheiros disse mais do que qualquer comunicado oficial. Não houve assembleia, não houve grupo de trabalho, não houve consulta pública. Houve aquilo que o brasileiro só vê hoje em pequenos bolsos de realidade que escaparam do rolo compressor da política: um reconhecimento espontâneo de hierarquia, construído por atos verificáveis, não por discurso.
A coisa impressiona porque destoa de tudo. Pense em qualquer outro espaço da vida pública: a vaga é decidida por critério político, por padrinho, por cota, por barganha de bastidor, por chororô de assessoria de imprensa. O sujeito que entrega menos berra mais alto e ainda recebe o troféu. No futebol da Seleção, ao menos no rito da numeração, o jogo é outro. Os pares sabem quem fez gol em final, quem carregou o time nas costas quando ninguém mais queria a bola, quem suportou o peso do uniforme em noites que valiam carreira. E calam, porque sabem. É um pedaço de feudalismo benigno sobrevivendo dentro do estado moderno, e funciona melhor do que noventa por cento do que se faz em Brasília.
Vale notar a contradição que esse episódio escancara. A mesma imprensa que passa o ano inteiro pregando que mérito é mito, que hierarquia é violência simbólica, que tradição é atraso, se cala diante da numeração da Seleção e aceita o veredito como natural. E é natural mesmo. O problema é que a naturalidade só é tolerada quando o assunto é entretenimento. Tente aplicar o mesmo princípio na universidade, no concurso público, na repartição, na empresa estatal, e o mesmo articulista que aplaude Neymar com a 10 vai escrever três colunas explicando que critério objetivo é opressão. A coisa é deliciosamente reveladora: a meritocracia sobrevive onde o povo paga ingresso para ver, e morre onde o povo paga imposto para sustentar.
Siga o dinheiro e a história fica mais clara ainda. A camisa 10 de uma seleção que vai à Copa movimenta patrocínio, vende milhões em réplicas, pauta capa de revista, fecha contrato publicitário internacional. É um ativo de mercado avaliado em cifras que fariam corar deputado. E, mesmo assim, ninguém na concentração se levantou para reivindicar a peça em nome de equidade, de revezamento, de representatividade regional. Por quê? Porque o vestiário é um dos últimos ambientes do país onde a mentira não sobrevive a noventa minutos de bola rolando. Não tem narrativa que segure passe errado. Não tem hashtag que substitua finalização. O critério é cruel, é público, é repetido a cada partida, e por isso mesmo é justo.
O simbolismo é maior do que o número costurado nas costas. A camisa 10 é o último cargo do Brasil que ainda se herda pelo que se faz, e não pelo que se grita. É a vaga que ninguém pede porque todos sabem que pedir é confessar que não merece. Num país onde o ministério se distribui por planilha partidária, onde a estatal vira cabide de afilhado, onde a verba pública corre por canos invisíveis até as mãos certas, sobrou esse pedaço de tecido amarelo como pequeno santuário de realidade. É pouco, mas é mais do que se vê na maior parte das instituições que vivem do nosso bolso.
O resto do país que aprenda a lição antes do apito inicial. Hierarquia construída por entrega é estável, gera respeito e dispensa decreto. Hierarquia construída por imposição da burocracia gera ressentimento, fila, corrupção e aquela sensação permanente de que alguém está levando vantagem às nossas custas, geralmente porque está mesmo. Neymar pega a 10 porque a história dele em campo paga a conta. Quem paga, em campo, ganha o direito de receber. Pena que o princípio fique restrito ao gramado. O resto da vida nacional segue pagando para que outros recebam, e nem ao menos vê a bola rolar.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.