Dez mil mortos. Não em guerra declarada, não em catástrofe natural, não em epidemia. Dez mil venezuelanos executados pelo próprio aparato que jurou protegê-los, contabilizados friamente por uma organização local de direitos humanos que teve a coragem de fazer aquilo que a imprensa simpática ao chavismo se recusa a fazer há treze anos: contar os corpos. Desde 2013, quando o herdeiro pegou o cetro das mãos do mito embalsamado, o Estado venezuelano transformou suas forças de segurança numa linha de montagem de cadáveres, com a eficiência burocrática que só os regimes que se autoproclamam humanitários conseguem alcançar.
É preciso entender a mecânica do negócio. Um regime não mata dez mil pessoas por acidente, nem por excesso de zelo de policiais mal treinados. Mata porque precisa matar, porque a sobrevivência do arranjo depende do terror difuso, daquela sensação cotidiana de que qualquer um pode ser o próximo. A FAES, as Operações de Libertação do Povo, os coletivos paramilitares, toda essa zoologia de siglas existe para uma função muito específica: garantir que ninguém ouse organizar resistência num país onde a moeda virou confete, a comida sumiu das prateleiras e o petróleo, que deveria ser bênção, virou maldição administrada por compadres do palácio.
E quem paga essa conta macabra? Paga o venezuelano comum, duas vezes. Paga primeiro com os impostos e o confisco inflacionário que sustentam as folhas de pagamento dos algozes fardados. Paga depois com o sangue do filho, do irmão, do vizinho que apareceu morto numa viela de Petare com a versão oficial de sempre, resistência à autoridade. Quem recebe é a casta militar que controla a importação de alimentos, o cartel cubano que comanda os serviços de inteligência, os generais transformados em narcotraficantes, os filhos do regime esbanjando em Madri enquanto a mãe do morto procura o corpo no necrotério lotado. O socialismo bolivariano nunca foi um experimento social fracassado, foi um esquema de extração de renda extremamente bem-sucedido para quem está em cima.
A premissa é simples e a conclusão, inescapável. Todo Estado que monopoliza a violência precisa de justificativa para usá-la. Quando a justificativa econômica desaba, quando o paraíso prometido vira fila de pão, sobra apenas a justificativa nua: matamos porque podemos, e matamos para continuar podendo. A diferença entre o regime venezuelano e qualquer outra tirania latino-americana do século passado não é de natureza, é de marketing. Pinochet era vilão de cartilha escolar, Maduro recebe abraços em cúpulas internacionais e elogios de intelectuais de Sorbonne. A diferença é que um caiu antipático ao consenso global, o outro caiu simpático. Os mortos não se importam com a distinção.
O mais obsceno desse enredo todo é o silêncio sepulcral dos mesmos coros que sabem de cor cada vírgula da ditadura militar brasileira de quarenta anos atrás. Aprenderam a contar até quatrocentos e trinta e quatro mortos com precisão de relojoeiro suíço, mas perdem a calculadora quando o número chega a dez mil e o algoz tem o crachá certo, a retórica certa, o inimigo certo. Há uma seletividade moral que escancara a verdade incômoda: para certa intelligentsia, cadáver de pobre venezuelano executado por revolucionário vale menos do que estatística inflada de qualquer outra geografia política. A vida humana, descobrimos, tem cotação variável conforme a bandeira do carrasco.
Resta a lição que ninguém quer aprender porque aprender custaria caro demais. O Estado, quando inchado, quando libertado dos grilhões da propriedade privada, do contrato e do limite, não é o pai protetor que prometeram nas cartilhas. É um animal faminto, e seu apetite é proporcional ao seu tamanho. A Venezuela não é uma anomalia tropical, é um manual de instruções. Está ali, escancarado, dez mil vezes assinado com sangue, para quem tiver olhos de ver e estômago para encarar. E ainda assim haverá quem chame aquilo de processo histórico complexo, contradições da transição, sabotagem imperialista. As palavras existem justamente para que dez mil corpos pareçam menores do que são.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.