Na próxima quarta-feira, dia 14 de maio, entra no mercado um chinelo chamado Pé Direito, anunciado por um deputado federal como alternativa para quem decidiu não calçar mais o produto da multinacional brasileira que resolveu transformar campanha publicitária em sermão ideológico. O fato é simples, quase cômico em sua nudez: a empresa cutucou metade do país, metade do país respondeu fechando a carteira, e alguém viu na revolta uma oportunidade comercial. Capitalismo funcionando como sempre funcionou, sem comitê, sem ministério, sem decreto. Bastou a ofensa de um lado e o faro do outro.
O detalhe que ninguém quer encarar é que a tal multinacional não está apanhando por causa de chinelo. Está apanhando porque confundiu cliente com catequisando. Decidiu pregar do alto do púlpito publicitário, esquecendo que o púlpito foi construído tijolo a tijolo com o dinheiro de quem agora está sendo doutrinado. É o velho vício das corporações que cresceram demais e perderam o medo do consumidor: passam a se enxergar como agentes de transformação social, quando na verdade são fábricas de borracha vulcanizada que existem por uma única razão, vender borracha vulcanizada. No instante em que a empresa esquece para que serve, o mercado lembra. Com juros.
Há quem chame a reação de cancelamento, palavra feia importada para descrever algo que sempre existiu e tem nome mais antigo: boicote. O boicote é a única forma de voto verdadeiramente livre que sobrou ao cidadão, porque dispensa urna, dispensa juiz, dispensa Tribunal Superior. É voto em tempo real, registrado no extrato bancário da empresa. E o mais delicioso é que quem mais detesta esse voto é justamente a casta que vive pregando participação popular, desde que a participação se dê dentro do curral por eles delimitado. Fora do curral é populismo, fora do curral é desinformação, fora do curral é extremismo. Dentro do curral é democracia. Sempre foi assim.
Siga o dinheiro e a história fica mais saborosa ainda. A multinacional em questão tem ações em bolsa, contrato com governo, presença em rede pública, e durante décadas se vendeu como símbolo afetivo do país tropical. Cobrou caro por isso, naturalmente. Agora descobre que o afeto que ela mesma fabricou tem prazo de validade, e o prazo expirou quando ela resolveu trocar o cliente pelo aplauso da plateia certa, aquela plateia que nunca compra nada mas distribui medalhas de bom comportamento. O resultado é o de sempre nesses casos: as medalhas não pagam folha, e a plateia que aplaudiu nunca foi cliente, era só claque emprestada.
O chinelo concorrente pode dar certo, pode dar errado, pode virar moda passageira ou pode quebrar antes do Natal. Pouco importa para a lição central, que é esta: existe um mercado inteiro, gigantesco, esquecido, composto por gente que não quer ser sermonada quando vai comprar pão, sapato ou refrigerante. Esse mercado foi tratado durante anos como se não existisse, como se fosse uma estatística envergonhada que iria sumir com a próxima geração. Não sumiu. Está ali, com cartão na mão, esperando alguém que entenda que vender é servir, não doutrinar. Quem entender primeiro come o almoço dos distraídos. Quem continuar pregando vai ficar com a fome do justo.
O verdadeiro escândalo da história nem é o chinelo, nem o deputado, nem a empresa que se enrolou nos próprios cadarços. O escândalo é descobrir, mais uma vez, que a soberania popular real não mora no plenário, mora no caixa registrador. Toda vez que alguém esquece isso, o caixa lembra. E o caixa, ao contrário do plenário, não aceita discurso, não aceita gravata, não aceita comissão parlamentar de inquérito. Aceita produto que serve para o que promete servir, ao preço que o sujeito pode pagar, vendido por quem não o trata como retardado. Tudo o que foge disso é overhead, é gordura, é tempo emprestado. E o tempo emprestado, todo mundo sabe, cobra juros compostos.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.