O brasileiro tem memória prodigiosa para o que não importa e amnésia clínica para o que decide a vida dele. Pergunte na padaria quem foi Odete Roitman, Nazaré Tedesco, Carminha, e o freguês da fila do pão recita falas inteiras, gestos, expressões faciais, o ano em que a personagem morreu, quem matou, com que arma. Pergunte ao mesmo cidadão quem é o relator da reforma tributária que vai sangrar o bolso dele nos próximos vinte anos e o silêncio é de cemitério em madrugada de chuva. A vilã fictícia é celebridade nacional. O vilão real é anônimo protegido, e essa assimetria não é acaso, é projeto.

Há uma engenharia muito antiga nisso, e ela vem desde os tempos do pão e circo romano, quando o imperador percebeu que o povo aceita perder a colheita desde que receba a corrida de bigas. O entretenimento popular sempre foi o anestésico mais barato e mais eficaz da história da humanidade, mais lucrativo que ópio, mais discreto que chumbo na água. A novela das nove cumpre, no Brasil, a função que o coliseu cumpria em Roma, manter o sujeito olhando para o lado errado enquanto o bolso é esvaziado pelo lado certo. E o mais cômico é que a conta do espetáculo vem embutida no contracheque do espectador via concessão pública, via verba publicitária estatal, via isenção fiscal para emissora.

Repare na simetria perversa. A vilã da ficção rouba diamante, envenena marido, manda matar enteado, e o telespectador adora, repete bordão, faz meme, paga mensalidade de streaming para rever. A vilã da vida real, que mora em Brasília e tem foro privilegiado, aprova projeto que confisca trinta e oito por cento do salário do mesmo telespectador, vota emenda secreta, distribui cargo para parente, e o sujeito não sabe sequer o nome. A diferença entre Nazaré e o senador médio é que Nazaré é honesta sobre o que faz, anuncia o crime, ri da própria maldade. O senador faz exatamente igual, mas chama de política pública, justiça social, pacto federativo.

A trilha do dinheiro nessa história é deliciosa de seguir. A emissora vive de concessão dada pelo governo, o governo vive de imposto cobrado do público, o público assiste de graça achando que está ganhando alguma coisa, e o anunciante paga a conta repassando o custo no preço do sabão em pó. Ou seja, o cidadão paga três vezes pelo entretenimento que recebe, e ainda agradece. É o golpe perfeito, daqueles em que a vítima beija a mão do trambiqueiro e pede mais. Compare com a vilã da novela, que pelo menos precisa de roteiro, ensaio, maquiagem. O vilão real precisa só de microfone e de um eleitor distraído com o capítulo da véspera.

O silogismo é cruel e curto. Quem domina a atenção domina a percepção. Quem domina a percepção domina o voto. Quem domina o voto domina o orçamento. E o orçamento, meu caro, é o seu suor convertido em mordomia alheia. Por isso a vilã de novela é santificada na memória nacional, ela é útil ao arranjo, distrai o gado enquanto o cercado é apertado. Memorizar bordão de personagem fictícia é grátis e libera dopamina. Memorizar nome de quem aprova aumento de tributo dá trabalho, dá raiva, e pior, exige ação. O brasileiro escolheu, faz décadas, o caminho da preguiça intelectual com sorriso no rosto.

Enquanto a discussão nacional girar em torno de qual vilã foi mais marcante, quem matou quem no capítulo final, qual atriz interpretou melhor a megera, o assalto seguirá em ritmo de cruzeiro. A verdadeira vilania não usa figurino de grife, usa terno mal cortado e fala em nome do povo. Não tem bordão memorável porque não precisa, tem caneta. E enquanto o telespectador decora a fala da personagem, a caneta assina a lei que vai tirar mais um pedaço do salário dele no mês que vem. Quem paga é sempre o mesmo, quem recebe também, e a novela, essa sim, nunca acaba.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.