A manchete chega vestida de descoberta antropológica, como se algum pesquisador tivesse acabado de retornar das ilhas Trobriand com a notícia bombástica de que Arthur soa mais elegante que Genival. Nomes clássicos, nomes estrangeiros, nomes de novela das oito travestidos de sobrenome português antigo, tudo isso passaria, segundo a reportagem, uma sensação de status. Repare na palavra. Sensação. Não status, não riqueza, não tradição. Sensação. A própria escolha do vocábulo já entrega o jogo: vendem ilusão a varejo e fingem estar descrevendo um fenômeno natural, como quem fala da gravidade.

O fato concreto, despido da maquiagem editorial, é simples e brutal. Um país de oitenta por cento de assalariados endividados convenceu a si mesmo de que batizar o filho de Lorenzo Valentino o aproxima de um patrimônio que nunca chegará pela via genética. É a versão tupiniquim da peruca empoada do século dezoito, quando o burguês francês recém enriquecido pagava fortunas para parecer descendente de algum cavaleiro das cruzadas. A diferença é que o burguês francês ao menos tinha enriquecido. Aqui, o aspirante batiza, financia o berço em doze vezes e volta para o aluguel atrasado.

Pergunte quem ganha com essa engenharia simbólica. Ganha a indústria do consumo aspiracional, que precisa do sujeito permanentemente convencido de que falta uma camada de verniz para chegar lá. Ganham as escolas particulares de nomes pomposos, os condomínios com placa em italiano macarrônico, as marcas que cobram quatro vezes mais pela mesma camiseta com etiqueta em francês. Ganha, sobretudo, a casta política e midiática que precisa de uma população obcecada com aparência, porque quem está ocupado em parecer rico não tem tempo de perguntar para onde foi o dinheiro do imposto. Cobram a fortuna em tributo, devolvem em sílabas chiques. Negócio da China, do ponto de vista deles.

Há aqui um silogismo que ninguém se atreve a montar em voz alta. Se o nome do indivíduo dependesse efetivamente de seu sobrenome, as casas reais europeias não estariam falidas e os herdeiros de barões do café paulista não estariam, muitos deles, vendendo seguro. Logo, o nome não produz status. Produz, no máximo, expectativa frustrada. E expectativa frustrada, em escala nacional, é matéria-prima de ressentimento, que por sua vez é o combustível favorito de toda demagogia. O cidadão que se imagina secretamente um Henrique Aurélio e descobre na vida adulta que continua sendo tratado como número de protocolo vai votar em quem prometer vingança contra os verdadeiros Henriques Aurélios. E assim a roda gira.

O que a reportagem chama eufemisticamente de tradição é, na verdade, mimetismo. O sujeito não herda valores, hábitos, biblioteca, capital acumulado em três gerações de trabalho honesto. Herda apenas a fonética. É como comprar a moldura sem o quadro e pendurar na parede achando que decorou a sala com um clássico. Tradição se constrói com tempo, disciplina e propriedade transmitida de pai para filho sem que o leão fiscal devore metade no caminho. Num país onde o Estado confisca em vida e em morte, onde a herança é tratada como pecado a ser punido, sobra ao pobre coitado o consolo barato do registro civil. É a única aristocracia que o cartório ainda vende sem cobrar ITCMD.

Termina como começou, com a pergunta de sempre. Quem paga essa fantasia coletiva e quem recebe? Paga o pai de família que aperta o orçamento para matricular o pequeno Theodoro Augusto na escola que promete formar lordes. Recebe a estrutura inteira de uma sociedade montada para vender pertencimento simulado a quem foi sistematicamente impedido de acumular o pertencimento real. O rei está nu, o nome dele é imponente, e a plateia aplaude a roupa imaginária com o último centavo do salário.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.