Davi Durigan, o homem que opera a máquina da Fazenda enquanto Haddad sorri para as câmeras, está nos Estados Unidos até segunda-feira cumprindo aquilo que o jargão oficial chama de "agenda com autoridades globais". Traduzindo do burocratês para o português dos mortais: o emissário do governo brasileiro foi pedir beneplácito aos mesmos círculos financeiros internacionais que, publicamente, nossos ministros fingem enfrentar em nome da "soberania nacional". Entre os encontros, destaca-se a reunião com Ilan Goldfajn, ex-presidente do Banco Central brasileiro, hoje instalado confortavelmente na presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento. O mesmo Ilan que conhece cada gaveta do cofre nacional, cada mecanismo de política monetária, cada atalho entre Brasília e Washington. Coincidência? Em política, coincidência é a palavra que usam quando não querem que você pergunte quem combinou o quê.
O roteiro é velho como a República. Um governo que se elegeu prometendo "cuidar do povo" manda seus operadores negociar nos salões refrigerados de Washington, longe dos olhos de quem paga a conta. Não há transmissão ao vivo dessas reuniões, não há ata pública, não há prestação de contas. O contribuinte brasileiro, que acorda às cinco da manhã para trabalhar até junho só para quitar o que o Estado lhe confisca, não tem o menor acesso ao conteúdo dessas conversas. Mas pode ter certeza de que o resultado delas aparecerá na próxima medida provisória, no próximo decreto, na próxima "solução técnica" que, por pura casualidade, beneficia sempre os mesmos grupos.
Ilan Goldfajn é um caso de estudo sobre como funciona a porta giratória entre o Estado e as instituições financeiras internacionais. Presidiu o Banco Central do Brasil, saiu, e em vez de voltar ao setor privado como um cidadão comum, foi catapultado para a chefia do BID, o banco que empresta dinheiro a governos latino-americanos, dinheiro que será pago, naturalmente, pelos mesmos cidadãos que jamais foram consultados sobre o empréstimo. A lógica é circular e perversa: o burocrata sai do governo, vai para o organismo internacional, e de lá continua influenciando a política econômica do país que deixou. É como se o gerente do banco pedisse demissão para virar auditor da mesma agência, e todos achassem isso perfeitamente normal.
O que Durigan foi buscar nessas reuniões? A resposta oficial dirá "alinhamento de políticas", "cooperação multilateral", "agenda de desenvolvimento sustentável" e outras expressões que não significam absolutamente nada, mas que soam importantes o suficiente para que nenhum jornalista se atreva a perguntar: quanto isso vai custar? E a quem vai beneficiar? Porque toda política pública, todo acordo internacional, toda linha de crédito multilateral tem um destinatário concreto. Não existe dinheiro público que cai do céu e se distribui igualmente entre duzentos e quinze milhões de brasileiros. Existe dinheiro que sai do bolso de quem trabalha e vai para o bolso de quem tem acesso aos corredores do poder. O resto é liturgia.
O mais revelador, porém, não é o encontro em si, mas o silêncio que o cerca. A notícia ocupa meia dúzia de linhas nos portais, sem contexto, sem questionamento, sem a menor curiosidade sobre o que exatamente está sendo negociado em nome do Brasil. Vivemos numa era em que o cidadão sabe o cardápio do almoço de qualquer influenciador digital, mas não faz ideia do que seu governo está prometendo a credores internacionais com o dinheiro dele. Isso não é acidente, é design. O sistema funciona melhor quando ninguém olha. E quando alguém olha, tratam de chamar de "teoria conspiratória" aquilo que é, na verdade, simples contabilidade: quem paga e quem recebe. Enquanto você não souber a resposta, pode ter certeza de que está do lado de quem paga.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.