Comecemos pelo escândalo, que é menor do que parece e maior do que querem que você perceba. Uma legislação peruana, em vigor desde janeiro deste ano, restringe a circulação de motocicletas com passageiros em certas zonas urbanas de Lima, com multas que, convertidas, beiram os tais R$ 2.100. Atravessou a fronteira pela via de sempre, o print sem contexto, e em quarenta e oito horas virou pauta nos grupos de motofretistas brasileiros, na boca dos influenciadores apocalípticos e nas manchetes caça-clique que ganham a vida vendendo medo embrulhado em papel de jornal. O fato concreto cabe em uma linha: aqui no Brasil, ninguém aprovou nada disso. Mas o pânico já foi monetizado.
E é aí que mora o cinismo da coisa. Pergunte-se quem ganha com esse boato. Os portais ganham clique, que é o açúcar do café da manhã do jornalismo decadente. Os agregadores de checagem ganham relevância vendendo-se como vacina contra o vírus que eles próprios ajudaram a inocular. E o burocrata de plantão, que sempre sonhou em regular cada centímetro da sua existência, ganha algo ainda mais precioso: a constatação empírica de que o brasileiro engole qualquer restrição se ela vier embrulhada em decreto. Se a multa fosse real, o motoboy reclamaria por uma semana, faria três posts indignados e pagaria. Já está domesticado. O boato é, antes de tudo, uma pesquisa de mercado gratuita para o legislador interessado em saber até onde pode apertar o parafuso.
Note o roteiro, porque ele se repete com a regularidade dos eclipses. Surge uma medida exótica em algum canto do mundo, alguém a desloca de seu contexto, e ela aterrissa no debate nacional como se fosse iminente. O cidadão, que não tem tempo nem inclinação para conferir o número do diário oficial, reage. Se reage com revolta, o tema cai por terra e o legislador anota que aquilo ainda não cola. Se reage com resignação, o caminho está pavimentado para que, dali a seis meses ou dois anos, a proposta apareça de verdade, agora travestida de demanda popular. Foi assim com inúmeras restrições que hoje parecem naturais e que, vinte anos atrás, teriam provocado passeatas. O hábito de obedecer se ensaia, e o ensaio é gratuito.
Há ainda a questão de fundo, que ninguém quer encarar de frente. Por que é tão crível, para o brasileiro médio, que o Estado decida proibir do dia para a noite que duas pessoas dividam o mesmo veículo de duas rodas? Porque a experiência diária ensinou que sim, é exatamente esse o tipo de coisa que o legislador faz, e faz sem pedir licença. A motocicleta com garupa não é um problema de segurança pública: é o transporte do trabalhador que não tem carro, do entregador que sustenta a família, do casal que divide a única condução. Cada restrição imposta a esse veículo é, na prática, um pedágio cobrado sobre os mais pobres em nome de uma estatística sanitária qualquer. E o sujeito que paga nunca é o mesmo que assina o decreto, naturalmente.
O silogismo é constrangedor de tão simples. Toda regra produz beneficiados específicos. Toda regra restritiva sobre transporte popular beneficia quem vende alternativas mais caras, transportes públicos subsidiados, frotas regulamentadas, aplicativos com taxas oficiais. Logo, quando aparecer de verdade uma lei como essa, e ela vai aparecer, basta seguir o rastro do dinheiro até o lobby que a financiou. Não vai ser difícil. Esses senhores costumam deixar pegadas largas, porque já se acostumaram a não serem perseguidos.
Por enquanto, respire. A multa é peruana, o decreto é peruano, o problema é peruano. Mas guarde o roteiro, porque ele vai voltar com sotaque carioca, brasiliense ou paulista, e dessa vez não vai ser boato. Vai ser publicado no Diário Oficial às seis da tarde de uma sexta-feira, quando ninguém está olhando, assinado por um burocrata que nunca andou de moto na vida e justificado por uma comissão de notáveis que descobriu, com espanto científico, que duas pessoas pesam mais do que uma. O rei continuará nu. E continuará cobrando entrada para vê-lo.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.