Começou o ano e a mágica já desandou. O truque consistia em anunciar isenção de Imposto de Renda para as classes mais baixas, colher as palmas no horário nobre, e compensar o buraco arrancando um naco dos dividendos distribuídos por empresas. Bastaram algumas semanas de dados reais para o ilusionista perceber que a cartola estava vazia. A arrecadação prometida não veio, o rombo veio, e agora a isenção sagrada, aquela que serviu de peça publicitária para toda uma campanha, aparece sentada na mesa do cirurgião, esperando decisão.
Quem estuda o ofício dos governos sabe que esse filme tem roteiro fixo. O Estado nunca concede nada: ele apenas realoca. Quando a autoridade decreta alívio em um bolso, está confiscando em outro, só que o segundo bolso costuma ser menos visível, mais difuso, mais técnico. Dividendo soa a privilégio de banqueiro, então o eleitor mediano aplaude a picareta. O que ninguém conta no palanque é que dividendo é lucro depois do imposto, e tributá-lo de novo é bitributação disfarçada de justiça social. Quem recebe dividendo, no fim da cadeia, é o fundo de pensão do motorista, é o empreendedor que deu certo, é o aposentado que guardou em ação. A propaganda vende caça aos tubarões, a rede pega os peixes pequenos.
Agora siga o dinheiro, que é para isso que a gente serve neste canto do jornal. A isenção beneficia o contribuinte pequeno, verdade, mas quem colhe politicamente é o ocupante do Planalto, que vira benfeitor nacional sem botar um centavo do próprio bolso. A compensação via dividendos deveria cair sobre os produtivos, o que agrada a militância que confunde empreendedor com vilão de novela. O fracasso da arrecadação revela o que qualquer comerciante de bairro já sabia: você aumenta imposto, o capital se muda, se reveste, se reorganiza, paga advogado, migra para outras jurisdições, e o que sobra no caixa da Receita é menos do que antes. A planilha do burocrata ignora que o ser humano é vivo, reage, foge, se defende. Economia não é física de laboratório, é comportamento de gente com filhos para criar.
Aqui a lógica é de régua. Se o governo não tem dinheiro próprio, e toda despesa pública é financiada por impostos, empréstimos ou emissão inflacionária, então toda isenção precisa vir de algum outro lugar. Os três caminhos são conhecidos: ou corta gasto, o que nenhum político topa porque gasto é cabide de voto; ou tributa outro alguém, o que desagrada a base daquele alguém; ou emite moeda, o que vira aquele imposto silencioso que corrói a poupança no escuro. Com a tributação sobre dividendos fracassando, sobrou adivinhar qual das três rotas o maquinista vai escolher. Aposte na terceira, que é a preferida dos covardes. Inflação não aparece em projeto de lei, não exige votação, não precisa de palanque. Chega pela porta dos fundos, come o arroz do prato do trabalhador, e a culpa sempre é do mercado, do dólar, do clima, do vizinho, nunca da máquina.
Há ainda o detalhe cômico que ninguém comenta. A mesma casta política que clama por justiça fiscal passou décadas construindo um sistema tributário tão complexo, tão labiríntico, tão cheio de exceções e regimes especiais, que a sonegação elegante virou esporte olímpico dos amigos do rei. Se a preocupação fosse de fato com quem paga pouco, bastava simplificar, desburocratizar, reduzir alíquotas e alargar a base. Mas simplicidade não alimenta assessoria parlamentar, não gera emendas, não produz escritório de lobby. O emaranhado existe porque é ele que sustenta a classe que vive de intermediar o cidadão com o fisco. A confusão é a mercadoria. Quando você entende isso, para de se espantar com o teatro e começa a cobrar ingresso.
Fica, portanto, a pergunta que interessa. Quem paga a isenção do Imposto de Renda prometida em palanque? Não foram os ricos, os dividendos não renderam. Não foi o governo, que não tem dinheiro, apenas caixa alheio. Sobra você, que verá o preço do pão subir, o salário derreter, o combustível pesar, e ouvirá no jornal da noite que a culpa é do capitalismo selvagem. O truque mais antigo do mundo continua funcionando porque a plateia insiste em comprar ingresso para o mesmo espetáculo. Um dia, quem sabe, alguém vai se lembrar de perguntar de onde vem o dinheiro antes de aplaudir a generosidade do mágico. Enquanto esse dia não chega, a conta vem, e vem no seu nome.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.