A cena se repete em Barajas, em Barcelona, em qualquer guichê espanhol onde um brasileiro de bermuda chega achando que turismo é coisa simples. O passaporte está válido, carimbado, plastificado, com foto recente e tudo o mais que a cartilha pede. E mesmo assim o funcionário, com aquele sorriso burocrático que só quem nunca produziu nada na vida consegue esboçar, devolve o documento e manda o cidadão de volta para o avião. Motivo? A data de emissão é antiga demais, a validade residual é curta demais, ou falta uma autorização eletrônica que ninguém avisou que existia. Bem-vindo a 2026, onde o direito de ir e vir foi convertido em assinatura mensal.
Convém parar um instante e nomear a coisa pelo que ela é. Isto não é segurança, é arrecadação fantasiada de protocolo. Cada exigência nova significa um formulário a mais, uma taxa a mais, um intermediário a mais credenciado a cobrar pelo serviço de traduzir o juridiquês para o turista assustado. O ETIAS, essa sigla que soa como remédio para azia, custa sete euros por cabeça e precisa ser renovado periodicamente. Multiplique por milhões de visitantes ao ano e veja para onde vai o dinheiro. Não cai no bolso do guarda de fronteira, cai no orçamento de uma agência supranacional que ninguém elegeu, ninguém fiscaliza e ninguém consegue desmontar.
O argumento oficial é o de sempre, aquele clássico que serve para justificar qualquer abuso desde que o mundo é mundo: terrorismo, imigração ilegal, crime organizado. É o mesmo discurso que outrora justificou portões nas cidades medievais, salvo-condutos assinados por bispos, vistos consulares na era das guerras mundiais. Cada época inventa seu pretexto para vigiar quem se desloca, e cada época descobre, anos depois, que a vigilância nunca pegou o terrorista de verdade, mas encheu de papel a vida do açougueiro que queria visitar a tia em Sevilha. A premissa é que todo viajante é suspeito até prova em contrário, a conclusão é que todo viajante paga para provar inocência. O silogismo é impecável e nojento.
Há também o detalhe delicioso de que tudo isso é vendido como modernização tecnológica. Sistemas automatizados, biometria, reconhecimento facial, inteligência artificial cruzando bancos de dados. Tradução: aquele bug no sistema que antes era resolvido pelo bom senso de um agente experiente agora é decidido por um algoritmo opaco operado por um estagiário em Bruxelas. O turista deportado não tem para quem reclamar, não tem juiz a quem recorrer, não tem nem mesmo um humano a quem xingar. A máquina disse não, e a máquina é infalível porque ninguém entende como ela funciona. É a versão século XXI do oráculo de Delfos, com a diferença de que o oráculo grego pelo menos era barato.
A pergunta que ninguém faz nas reportagens bem comportadas é simples. Quem ganha com isso? Ganham as empresas terceirizadas que processam os vistos eletrônicos, ganham as consultorias que vendem cursos de adequação às novas regras, ganham os funcionários públicos europeus cujas carreiras dependem de inventar mais uma camada regulatória ano após ano. Perdem os turistas, perdem os pequenos hotéis espanhóis que dependem do fluxo, perde a própria Europa que se transforma num condomínio fechado paranoico enquanto a economia patina. Mas o burocrata não vive de turismo nem de PIB, vive da própria existência do problema que finge resolver.
O brasileiro que ainda acredita que o passaporte é um documento de liberdade precisa atualizar a definição. Passaporte hoje é licença revogável, concedida graciosamente pelo Estado emissor e validada graciosamente pelo Estado receptor, sujeita a condições que mudam sem aviso e a interpretações que variam conforme o humor do funcionário de plantão. A liberdade de locomoção, aquela que constava nas cartas constitucionais como direito natural do indivíduo, virou favor administrativo. E todo favor, como ensina a experiência, custa caro e nunca é suficiente. Da próxima vez que alguém disser que viajar nunca foi tão fácil, pergunte para quem.
Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.