Existe um tipo de cinismo que já ultrapassou a fronteira da desfaçatez e entrou no território da confissão involuntária. José Guimarães, recém-empossado ministro da Secretaria de Relações Institucionais, não apenas admitiu que o governo trabalhou para derrubar o relatório final da CPI do Crime Organizado: fez isso com a naturalidade de quem comenta o placar de um jogo de futebol. Nenhum rubor, nenhuma hesitação, nenhum pedido de desculpas. O relatório foi rejeitado nesta terça-feira, 14, e o articulador-mor do Planalto veio a público dizer que sim, a mão do governo estava ali, empurrando os botões certos. A pergunta que qualquer cidadão minimamente desperto deveria fazer é simples: por que um governo precisa mobilizar sua máquina para impedir que uma comissão parlamentar investigue o crime organizado?

A resposta não exige genialidade, exige apenas honestidade. Todo aparato estatal funciona segundo uma lógica que os discursos oficiais jamais revelam: quem paga e quem recebe. Uma CPI é, em tese, o instrumento pelo qual o Legislativo fiscaliza o que há de podre na República. Quando o Executivo se mobiliza para neutralizá-la, não está protegendo o interesse público, está protegendo interesses muito específicos, que precisam permanecer na sombra. Não se derruba um relatório sobre crime organizado por amor à justiça. Derruba-se porque o relatório, se aprovado, poderia iluminar conexões que certas pessoas preferem manter no escuro. O dinheiro do crime não circula no vácuo; ele precisa de rotas, de proteção, de blindagem institucional. E blindagem institucional é precisamente o que um governo oferece quando usa seu capital político para sabotar uma investigação.

O mais espantoso não é a articulação em si, porque governos sempre articularam contra investigações que lhes são inconvenientes. O espantoso é a confissão pública, feita com a tranquilidade de quem sabe que não haverá consequência alguma. Isso revela algo mais profundo sobre o estado atual da política brasileira: o poder já não precisa nem fingir. Em tempos passados, a hipocrisia ao menos prestava tributo à virtude; o político que sabotava uma CPI tinha o bom senso de negar, de disfarçar, de inventar uma justificativa técnica qualquer. Guimarães não se deu a esse trabalho. E não se deu porque sabe que a base parlamentar está comprada, a imprensa aliada fará a cobertura adequada e o eleitor médio estará ocupado demais sobrevivendo ao custo de vida para prestar atenção. A confissão não é descuido; é demonstração de força.

Convém lembrar o que uma CPI do Crime Organizado poderia, em tese, investigar: lavagem de dinheiro, facções que controlam territórios inteiros, o fluxo de recursos ilícitos que alimenta campanhas eleitorais, a simbiose entre o submundo e o mundo oficial. Cada um desses fios, se puxado com seriedade, levaria a nomes, a contas, a transferências que conectam o crime de rua ao crime de gabinete. A rejeição do relatório não é um evento parlamentar corriqueiro; é um ato de proteção. É o Estado cumprindo sua função real, que nunca foi proteger o cidadão, mas proteger a si mesmo e aos que lhe financiam a existência. O contribuinte paga a CPI que deveria investigar o crime, e o mesmo contribuinte paga o governo que derruba a CPI para que o crime siga investigado apenas no varejo, nunca no atacado.

Há quem diga que a política é a arte do possível. Mas quando o possível inclui confessar publicamente a sabotagem de uma investigação criminal sem que ninguém seja punido, preso ou sequer constrangido, então a política deixou de ser arte e virou aquilo que sempre foi em essência: o monopólio organizado da impunidade. O governo não escondeu o jogo. Mostrou as cartas, olhou nos olhos do país e disse: "Sim, fomos nós." E o país, domesticado por décadas de escândalos sem consequência, apenas mudou de canal. A CPI morreu. O crime organizado agradece. E o ministro que confessou a manobra foi promovido. Se você ainda acredita que o Estado existe para combater o crime, talvez seja hora de reconsiderar quem, afinal, está organizado contra quem.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.