O dado saiu, os terminais piscaram em verde, os analistas bateram palma para si mesmos: o núcleo do IPC norueguês em agosto veio "conforme o esperado". Repare no vocabulário. Não veio baixo, não veio sob controle, não veio derrotado. Veio conforme o esperado. E o esperado, traduzido do dialeto dos bancos centrais para o português dos mortais, significa que os preços continuam subindo num ritmo que corrói silenciosamente o poder de compra de quem trabalha, poupa e paga imposto sobre o que sobra. A festa é dos economistas que acertaram a projeção. A conta é do sujeito que foi ao supermercado.
Existe uma mágica semântica no ofício de banqueiro central que precisa ser desmontada com paciência. Quando a inflação surpreende para cima, é "choque externo". Quando surpreende para baixo, é "sucesso da política monetária". E quando vem no meio, é "ancoragem das expectativas". Sempre há um verbete pronto para transformar o fracasso em técnica e o roubo em prudência. A Noruega, país rico em petróleo, com fundo soberano do tamanho de um continente, com uma das populações mais educadas do planeta, não escapa da lógica universal: emitiu moeda demais durante os anos de juro zero, financiou gastança pública, e agora administra o rescaldo chamando o rescaldo de estabilidade.
O detalhe que ninguém quer olhar é a origem do fenômeno. Inflação não cai do céu, não vem do clima, não é culpa da guerra do vizinho nem da cadeia produtiva chinesa. Inflação é o preço que a sociedade paga quando a autoridade monetária, sozinha num escritório iluminado, decide quanto dinheiro deve existir no mundo. É um imposto que ninguém votou, cobrado por um funcionário que ninguém elegeu, para financiar despesas que ninguém autorizou item por item. E o pior: é um imposto regressivo, porque quem tem ativo se protege, quem tem só salário e caderneta apanha na íntegra.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Quem lucra com o núcleo do IPC subindo "conforme o esperado"? O Tesouro, que arrecada mais nominalmente sem precisar aprovar aumento de alíquota. Os bancos, que embolsam o spread entre o juro que pagam ao poupador e o juro que cobram do tomador. Os devedores privilegiados, tipicamente grandes corporações e o próprio Estado, que devolvem em moeda desidratada aquilo que pegaram em moeda cheia. Quem perde? A aposentada que guardou coroa a vida inteira, o jovem que ainda não comprou a primeira casa, o pequeno comerciante que não consegue repassar preço na mesma velocidade em que seus insumos sobem. É sempre a mesma engenharia, mudam só os sotaques.
Há ainda o aspecto quase cômico da liturgia. O banco central publica a meta, erra a meta, publica a projeção, cumpre a projeção de errar a meta, e chama o cumprimento da projeção de sucesso. É como um médico que promete curar o paciente, prevê que o paciente vai piorar, o paciente piora exatamente na medida prevista, e o médico recebe elogios pela precisão do diagnóstico. Ninguém pergunta o óbvio: se o senhor sabia que ia piorar, por que não mudou o tratamento? Porque o tratamento é o negócio. A inflação controlada, palatável, "ancorada", é o produto que essas instituições vendem ao Estado que as sustenta.
A Noruega tem uma vantagem sobre a maioria: petróleo, fundo soberano e uma tradição de austeridade que ainda respira nos velhos. Mas nem isso salva do vício monetário universal. O núcleo sobe, o consenso aplaude, e ninguém pergunta quanto do salário real dos noruegueses foi transferido, nesta única leitura mensal, dos bolsos privados para o balanço público. A resposta seria constrangedora demais para caber num terminal Bloomberg. Melhor ficar no "conforme o esperado" e passar para a próxima manchete.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.