Sábado, dois de maio, praia de Bertioga, sol de litoral paulista, e de repente o horizonte ganha aquela arquitetura sombria que parece o teto de uma catedral gótica desabando devagar sobre o mar. A tal nuvem prateleira, nome técnico para um fenômeno bastante corriqueiro associado à chegada de frentes frias, fez o que costuma fazer: assustou banhista, viralizou no aplicativo da moda e rendeu manchete em jornal grande. O céu, coitado, cumpre seu ofício há alguns bilhões de anos sem pedir licença, sem licitação, sem audiência pública e sem cobrar taxa de fiscalização. Já é mais do que se pode dizer de quase qualquer coisa que se mova neste país.
Há algo de revelador no espanto. O sujeito olha para cima, vê uma massa cinzenta avançando sobre a costa e instintivamente sente que precisa correr, recolher a cangas, pegar a criança no colo, proteger o que é seu. Reação saudável, ancestral, civilizatória. O mesmo sujeito, porém, assiste impassível à frente fria permanente que avança sobre o seu contracheque todo mês, à tempestade silenciosa que dissolve o poder de compra do real enquanto ele dorme, ao temporal regulatório que afoga o pequeno comerciante da orla em alvarás, taxas sanitárias, contribuições sindicais e uma sopa de siglas que nem o fiscal sabe explicar. A nuvem natural ele filma. A nuvem fabricada em gabinete ele paga sem ler o boleto.
Esta é a velha mágica de quem governa: distrair os olhos para o céu enquanto a mão entra no bolso. Romanos antigos, quando queriam acalmar a plebe enfurecida pelo preço do trigo, soltavam leões no Coliseu e mandavam o povo aplaudir. Hoje a função do leão é desempenhada pelo espetáculo meteorológico, pela polêmica de celebridade, pela briga de torcida no estádio, pela manchete sobre disco voador. O cidadão sai de casa pensando em frente fria e volta sem perceber que aprovaram, no mesmo sábado, mais um decreto qualquer aumentando alíquota de algum imposto cuja sigla ele jamais decorará. O temporal de verdade não tem trovão; tem Diário Oficial.
Vale notar, e aqui mora a graça amarga da história, que a nuvem prateleira não cobra nada de ninguém para se formar. Não há ministério da nebulosidade, não há agência reguladora da umidade relativa, não há secretaria nacional de frentes frias com seiscentos cargos comissionados encarregada de autorizar a precipitação. O fenômeno se organiza sozinho, espontaneamente, segundo leis que ninguém votou e ninguém pode revogar. Se algum legislador esperto resolvesse criar uma Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Atmosférico, alegando que o céu precisa ser modernizado, ainda assim a chuva cairia exatamente quando bem entendesse, e a única diferença seria que o picolé na praia ficaria mais caro. O mercado das coisas espontâneas funciona sem permissão. O mercado das coisas decretadas só funciona se houver um cassetete por perto.
O banhista, pobre coitado, foi educado a temer o que vem do céu e a confiar no que vem do palanque. Deveria ser o contrário. A nuvem passa em quarenta minutos, deixa areia molhada, cerveja interrompida e, no máximo, uma gripe na segunda. Já o decreto fica. O imposto fica. A regulação fica. A inflação, essa nuvem prateleira invisível que cobre o país inteiro o ano inteiro, não tem previsão de dispersão e nenhum meteorologista da imprensa oficial parece interessado em alertar o turista. Manchete de tempo é fácil; manchete de confisco silencioso dá processo, perde anunciante, irrita o gabinete.
Fica o aprendizado da tarde de Bertioga, esse pequeno sermão laico que o céu ofereceu de graça a quem quis escutar. As coisas naturais se anunciam, escurecem, espantam e passam. As coisas artificiais do poder chegam disfarçadas de proteção, vestidas de boa intenção, embaladas em linguagem técnica, e ficam para sempre tomando conta do bolso alheio. A próxima vez que o horizonte fechar sobre o mar, aproveite o espetáculo gratuito, recolha a família e respire fundo. E ao voltar para casa, abra o extrato bancário com a mesma atenção com que abriu o aplicativo do tempo. Lá está a tempestade que ninguém filma, com previsão de durar a vida inteira, patrocinada por quem o senhor mesmo, distraído, continua elegendo.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.