Imagine a cena. Um sujeito qualquer caminha pela praia, tropeça num pedaço de matéria cinzenta com cheiro duvidoso, daquelas coisas que noventa e nove em cada cem pessoas chutariam de volta para o mar achando que é lixo de navio ou bicho morto. Pois esse torrão fétido, senhor leitor, pode valer mais que o salário de um ano inteiro do funcionário público médio que carimba processo em repartição. É âmbar-gris, o produto final do aparelho digestivo do cachalote, uma espécie de pedra do destino que a baleia expele e o oceano transforma em ouro perfumado. A natureza, essa anarquista insolente, distribui riqueza sem pedir licença ao Ministério da Fazenda.
O detalhe que merece uma boa gargalhada é o seguinte. Esse material, raro como honestidade em campanha eleitoral, sustenta há séculos a perfumaria de luxo francesa, aquela que vende frasco de cinquenta mililitros por mil e quinhentos reais e convence madame que ela está comprando elegância, quando na verdade está comprando essência fixada por vômito digerido de mamífero marinho. O cliente paga pela mística, paga pela embalagem, paga pelo nome italiano ou francês estampado na vitrine da loja em Cidade Jardim. Ninguém paga pelo cachalote, que faz o trabalho duro, e ninguém paga pelo pescador caiçara que encontra a pelota boiando. O lucro evapora rumo a Paris, Genebra e Mônaco, onde os impostos são uma sugestão e o sigilo bancário um direito divino.
Aqui mora a piada cósmica que nenhum burocrata consegue engolir. O âmbar-gris é o mercado livre em estado puro, anterior a qualquer regulação, alfândega ou agência reguladora com sigla de quatro letras. Não há plantação subsidiada, não há cota de exportação, não há nota fiscal eletrônica, não há ANVISA dizendo se a baleia digeriu direito. É o homem, o mar e o achado. Coisa que faz suar frio o tecnocrata, porque ele não consegue meter o dedo na transação, não consegue cobrar imposto sobre algo que aparece do nada na areia, e não consegue legislar sobre o intestino de um cetáceo que não votou nele. Por isso o material vive na zona cinzenta da lei, proibido em alguns países, livre em outros, sempre lucrativo onde a propriedade privada ainda significa alguma coisa.
Pense no silogismo simples que se impõe. A perfumaria de luxo precisa de fixador raro. O fixador mais raro é produzido pela baleia, de graça, sem horário de expediente. Logo, quem encontra primeiro fica rico, e quem legisla depois fica frustrado. Em economias sérias, esse achado pertence a quem achou, princípio antiquíssimo que sustenta a civilização desde que o primeiro pastor cercou seu pedaço de campo. Em economias capturadas pelo Leviatã, o Estado aparece de paletó dizendo que aquilo é patrimônio da humanidade, ou seja, patrimônio dele, e confisca em nome de uma abstração genérica que beneficia, no fim das contas, o cunhado do diretor da agência ambiental.
O âmbar-gris é uma alegoria perfeita do que a riqueza deveria ser, ao invés do que ela virou. Surge do acaso, premia a observação, recompensa o trabalho de andar pela praia com olho atento, e não pede autorização para existir. É o oposto do PIB inflado por gasto público, oposto da prosperidade fake que se mede por dívida emitida e estatística maquiada. É concreto, fede, e vale. Talvez por isso incomode tanto. Numa época em que tudo é narrativa, hashtag e métrica de engajamento, ainda existe um pedaço de mundo onde a coisa é o que é, custa o que vale, e enriquece quem viu primeiro. O resto é fumaça de gabinete.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.