O bicho está ali, parado, semi submerso, com cara de quem nunca leu um jornal nem pagou uma conta de luz. Dois mil quilos de carne dócil aos olhos do turista distraído. Aí ele abre a boca, cento e oitenta graus de mandíbula escancarada, e o sujeito que tirava selfie descobre, tarde demais, que aquele animal aparentemente bovino corre a trinta quilômetros por hora e tem entre os dentes uma pressão de mordida capaz de triturar um casco de tartaruga. Na África subsaariana, o hipopótamo mata mais gente do que leão, do que crocodilo, do que cobra. Mata mais que a soma deles. E continua, no imaginário coletivo, sendo desenhado como um balofo simpático em filme infantil.

Há algo de profundamente instrutivo nessa fraude visual. O sujeito passa a vida inteira sendo ensinado a temer o que ruge, o que mostra presa, o que faz cara feia no zoológico. Ninguém o ensina a temer o que está quieto. E o que está quieto, na natureza como na política, costuma ser justamente o que tem poder consolidado e não precisa mais fazer barulho para impor sua vontade. O leão ruge porque ainda disputa território. O hipopótamo não ruge: ele já é dono do rio, e quem entra na água dele descobre, sem aviso prévio, que ali existe uma jurisdição.

O herbívoro, repare bem, é herbívoro. Não come carne, não caça, não tem necessidade biológica de matar coisa alguma. Ataca por território, por cria, por irritação, por estar atrapalhando a passagem. Mata sem fome, mata por monopólio. É o protótipo perfeito do agente que controla um espaço por presença bruta e cobra pedágio em sangue de quem não percebeu que estava num domínio alheio. O animal não negocia, não publica edital, não abre consulta pública sobre as margens do rio. Ele simplesmente está lá, e o resto da fauna sabe, por instinto ou por estatística funerária, que existem trechos onde não se entra.

O ecossistema, contudo, depende dele. As fezes do bicho fertilizam a água, alimentam peixe, sustentam cadeia inteira. O sujeito que parece um arruaceiro gordo é, na contabilidade da savana, uma espécie de banco central da matéria orgânica. Tira o hipopótamo do rio e o rio empobrece. Coloca o hipopótamo no rio e o rio prospera, desde que ninguém atravesse na hora errada. A natureza, ao contrário do legislador humano, não finge que dá pra ter o benefício sem o custo. Quem quer rio fértil aceita rio perigoso. Quem quer rio domesticado aceita rio morto.

A moral da história, se é que zoologia comporta moral, é antiga como o medo. Aparência engana, e engana de propósito. O predador exibido você esquiva. O predador disfarçado de paisagem você abraça e morre. Vale para bicho de duas toneladas no Zambeze, vale para o sorridente que pede seu voto a cada quatro anos prometendo que dessa vez é diferente, vale para o vizinho calmo que nunca discute. O mundo é cheio de hipopótamos vestidos de boi, e o trabalho do adulto é aprender a distinguir um do outro antes de molhar os pés.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.