O sujeito desembarca em Ilhabela com a mala cheia de protetor solar, a carteira já mais leve depois da balsa, e descobre na primeira caminhada à beira do rio que existe um cobrador local mais eficiente que a Receita Federal. Chama-se borrachudo, ou pium, ou simúlio para quem gosta de nome científico, e tem o hábito desagradável de retalhar a pele com uma microcirurgia que deixa o mosquito comum parecendo amador. A fêmea precisa de sangue para maturar os ovos, e nisso ela é mais transparente que qualquer político: ela quer o seu sangue, ela vem pegar o seu sangue, e não finge que está fazendo isso pelo seu bem.

A picada não é uma picadinha. É um corte. O bicho não suga como o pernilongo educado; ele dilacera a pele com mandíbulas serrilhadas, forma uma poça de sangue na superfície e lambe ali mesmo, como gato em pires de leite. Resultado: uma gota vermelha característica, coceira que dura semana, inchaço, e em quem tem o azar de ser hipersensível, reações alérgicas que vão de bolhas a quadros respiratórios sérios. O turista descobre, com a mão na panturrilha em fogo, que existe diferença ontológica entre incômodo e dano, e que a natureza não pediu a opinião dele sobre essa distinção.

O detalhe que ninguém te conta na propaganda turística é que o borrachudo é indicador biológico de água limpa. Ele só prolifera em rios corrente, oxigenados, sem esgoto. Onde a sujeira humana entra, ele some. Ou seja, quanto mais preservado o paraíso, mais ferozes os cobradores. Há uma justiça selvagem nisso que devia constar nos folhetos: você quer cachoeira cristalina? Pague em pedaços de pele. Quer rio podre de cidade grande? Aí não tem borrachudo, tem outras coisas piores, geralmente humanas e com porte de arma do município.

A defesa não é mistério, e aqui é onde a indústria do medo perde a graça. Roupa de manga comprida e calça de tecido fechado em horário de pico, que é começo da manhã e fim da tarde. Repelente com icaridina ou DEET em concentração séria, não aquele perfuminho cítrico que serve mais para iludir o consumidor que para enganar o inseto. Telas nas janelas das pousadas, ventilador ligado porque o sujeito voa mal e desiste com qualquer corrente de ar, e bom senso para escolher onde acampar. Coceira instalada, compressa fria, anti-histamínico se a alergia apertar, e médico se o quadro escalar. Nenhuma dessas providências exige ministério, secretaria, programa federal ou taxa adicional. Exige adulto se comportando como adulto.

Repare na assimetria moral interessante: o borrachudo te pica, te machuca, te faz sangrar, e ninguém propõe criar uma Autoridade Nacional de Combate ao Simulídeo com orçamento de bilhões, frota de carros oficiais e cargos comissionados para parentes. A natureza é deixada em paz porque, no fundo, todo mundo sabe que mexer demais piora. Mas que o pernilongo da política, esse sim, prolifera em lagoa parada de dinheiro público, não tem repelente que resolva. Esse pica de manhã, à tarde, à noite, no sono e no recibo do cartão, e ainda exige gratidão pela picada.

A moral da história em Ilhabela é antiga e singela. O mundo cobra. Sempre cobrou. A diferença entre a cobrança honesta de um inseto e a cobrança travestida do poder público é que o bicho não te chama de cidadão enquanto morde, não te promete a redenção pela mordida, e não publica nota oficial dizendo que a sua dor é, na verdade, um investimento na sua qualidade de vida. Quem paga é sempre o mesmo: o sujeito de pernas à mostra. Quem recebe, nesse caso, é a fêmea grávida do simúlio, que ao menos usa o sangue para gerar vida nova, e não para financiar campanha de reeleição.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.