Digite *#21# no teclado do seu aparelho e aperte a tecla de chamada. Se aparecer alguma linha indicando que voz, dados ou mensagens estão sendo redirecionados para um número que você nunca viu na vida, parabéns, você acaba de descobrir que sua comunicação passou a ter um sócio oculto. Para interromper a festa, ##002# cancela todos os desvios de uma vez. É de uma simplicidade quase ofensiva. Três dígitos resolvem o que meses de propaganda oficial sobre cibersegurança não resolveram, porque os três dígitos custam zero, e a propaganda precisa custar bilhões.
A pergunta que ninguém faz é por que o cidadão precisa aprender isso por conta própria, garimpando em portal de notícia, quando a operadora sabe perfeitamente quando uma linha começou a desviar chamadas para outro número, a agência reguladora conhece o código desde os anos oitenta e o Ministério da Justiça faz seminários anuais sobre o tema. A resposta, como sempre, está na contabilidade. Campanha contra golpe virou indústria. Cartilha do banco central, palestra paga, consultoria contratada, núcleo de combate a fraude financiado com taxa embutida na sua conta. Se o problema fosse resolvido com três dígitos divulgados no comercial da novela, a folha de pagamento dessa turma toda encolheria do tamanho de uma ervilha.
É o velho expediente do incêndio subsidiado. Alguém cria o risco, alguém lucra vendendo extintor, alguém cobra imposto do extintor, alguém regula a venda do extintor, alguém fiscaliza a regulação do extintor. No fim, o fogo continua lá, porque sem fogo o arranjo desaba. O golpe do desvio de chamadas existe há décadas, é tecnicamente trivial de detectar na rede, e segue servindo de matéria-prima para palestras de R$ 15 mil e relatórios institucionais cheios de gráficos de pizza. O cidadão, esse coitado, paga a conta do fogo, paga a conta do extintor e ainda paga a conta do palestrante que vem explicar que o extintor é importante.
Reflita sobre a natureza desse arranjo. Você compra um aparelho com seu dinheiro, contrata uma linha com seu dinheiro, paga imposto em cima do aparelho, imposto em cima da linha, imposto em cima do imposto, e mesmo assim a responsabilidade por descobrir se alguém está escutando suas ligações é sua. A operadora lava as mãos, a reguladora lava as mãos, o legislador lava as mãos, e no balcão do cartório o escrivão cobra taxa para reconhecer firma no boletim de ocorrência que a polícia vai arquivar em trinta dias. Silogismo didático para quem ainda acredita em mamãe Noel institucional: se quem deveria proteger cobra pela proteção e não protege, então o contrato foi rompido; se o contrato foi rompido e o pagamento continua obrigatório, então não era contrato, era pedágio.
Há ainda o detalhe saboroso de que o mesmo Estado que não consegue impedir criminosos de desviar sua linha exige, cada vez com mais afinco, o direito de grampear a linha dele mesmo em nome da segurança nacional, do combate às fake news, da proteção da democracia, da moralidade pública, do bem comum e de qualquer outro substantivo abstrato que caiba num decreto. O sujeito privado que intercepta sua chamada é bandido, o sujeito fardado que intercepta a mesma chamada é autoridade. A diferença entre os dois, quando você olha com calma, se reduz a um crachá e a um carimbo. A técnica é idêntica. O confisco da sua privacidade é idêntico. Só muda a justificativa impressa no papel timbrado.
Enquanto isso, use os códigos. *#21# para ver desvios incondicionais, *#62# para ver para onde vão suas chamadas quando o aparelho está fora de área, *#67# para quando a linha está ocupada, e ##002# para varrer todos os desvios de uma vez. Guarde no bloco de notas, ensine aos seus. A privacidade, nessa altura do campeonato, é um exercício artesanal de resistência doméstica, coisa de quem já entendeu que o guarda que vigia o galinheiro tem dente de raposa. Quem paga é você, quem recebe é o arranjo, e a única ferramenta gratuita que sobrou no seu bolso cabe em cinco teclas.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.