Existe uma ironia estrutural, quase cômica na sua crueldade, no fato de que o ser humano contemporâneo confia ao aparato burocrático a gestão de sua saúde, de sua aposentadoria, de sua educação e de sua alimentação , enquanto a engenharia mais sofisticada que ele já abrigou opera todas as noites, sem supervisão estatal, sem protocolo aprovado pela Anvisa e sem reunião de alinhamento. O sistema glinfático, descoberto pela neurociência apenas em 2013 depois de milênios de sono humano perfeitamente funcional, é uma rede de canais que se abre durante o sono profundo e literalmente lava o cérebro, removendo resíduos metabólicos tóxicos , entre eles a proteína beta-amiloide, cuja acumulação está associada ao Alzheimer. Aristóteles, que sem aparelho de ressonância magnética compreendeu que a natureza não faz nada em vão, chamaria isso de telos: cada estrutura existe para cumprir uma finalidade, e o sono não é ausência de vida, mas sua expressão mais densa. O que O Antagonista noticiou com acerto é que esse espetáculo acontece todas as noites e quase ninguém percebe , o que não é coincidência, é modelo de negócio.

Siga o dinheiro, como sempre. O mercado global de medicamentos para distúrbios do sono movimentou mais de oitenta bilhões de dólares em 2024 e cresce a taxas que fariam corar qualquer rentista. Rothbard demonstrou com paciência de anatomista que o Estado e os grandes conglomerados industriais não são antagonistas , são sócios em conluio, o que ele chamou de power elite, a aliança entre o regulador e o regulado que extrai riqueza do cidadão comum enquanto finge protegê-lo. A indústria farmacêutica não tem interesse primário em curar a insônia estrutural de uma civilização que aboliu o ritmo circadiano natural em nome da produtividade, da tela azul permanente e do cortisol como combustível. Tem interesse em vender zolpidem. Tem interesse em que o paciente retorne. Tem interesse em que o médico prescreva e em que a agência reguladora aprove com o rigor que costuma reservar para esses casos , o mínimo necessário para manter a aparência de ciência sem interromper o fluxo de caixa. Bastiat chamava isso de "o que se vê e o que não se vê": vê-se o comprimido que adormece; não se vê a arquitetura do sono que ele sistematicamente degrada.

Durante o sono, o hipocampo transfere memórias de curto prazo para o córtex, consolidando aprendizado numa operação que nenhuma técnica de estudo consciente replica. O hormônio do crescimento é secretado em pulsos densos durante o sono de ondas lentas , não durante a academia, não durante a suplementação cara, mas durante as horas que o executivo moderno orgulhosamente corta para "ser mais produtivo". A pressão arterial cai, o sistema imunológico realiza varredura e reparo, as células-T se mobilizam, a leptina regula o apetite para o dia seguinte. Tudo isso ocorre segundo uma ordem que Hayek reconheceria imediatamente como espontânea: emergente, descentralizada, impossível de ser planejada de cima para baixo porque sua complexidade supera infinitamente a capacidade cognitiva de qualquer comitê de especialistas. O problema filosófico central aqui é o mesmo que Mises identificou no cálculo econômico socialista: não é que o planejador seja mal-intencionado , é que ele é, por definição, ignorante demais para a tarefa. O corpo humano processa, em uma única noite de sono reparador, mais informação biológica do que a OMS processa em uma década de relatórios.

Chesterton tinha uma máxima que os progressistas modernos ainda não conseguiram refutar: não derrube uma cerca sem entender por que ela foi construída. O sono de oito horas que o capitalismo industrial tratou como indolência e que o capitalismo de vigilância contemporâneo substituiu pelo scroll infinito às três da manhã não é uma herança preguiçosa do homem pré-moderno , é uma necessidade metabólica tão antiga quanto o sistema nervoso central. Tocqueville, que entendia melhor do que quase qualquer outro pensador o mecanismo pelo qual a tirania doce opera, descreveu um poder tutelar que não quebra as vontades, mas as amolece, dobra e guia. O que é a cultura do hustle senão isso? A glorificação do sono privado, do descanso negado, do corpo tratado como instrumento de produção que pode ser sobrecarregado indefinidamente , enquanto a indústria que fabrica energéticos, ansiolíticos e antidepressivos contabiliza os lucros do colapso que ajudou a projetar.

São Tomás de Aquino ensinava que a lei natural é cognoscível pela razão e que contrariá-la produz consequências reais, não meramente morais. O corpo humano dormindo é lei natural em operação , e a epidemia de demência precoce, obesidade, ansiedade e imunossupressão que assola o Ocidente é a consequência real, mensurável, de décadas de guerra cultural contra o sono. Não é coincidência que as mesmas forças que colonizaram a alimentação, o lazer e o trabalho tenham colonizado também a noite. Dostoiévski sabia que o homem que nega sua natureza não se liberta dela , apenas se torna seu escravo inconsciente. O executivo que dorme quatro horas e se vangloria disso no LinkedIn não está dominando o tempo: está pagando uma dívida biológica com juros compostos que a neurologia já precificou com clareza. O Antagonista fez bem em levantar o tema. A pergunta que o texto não faz, e que esta coluna se recusa a deixar de lado, é simples: quem lucra com a sua ignorância sobre o que acontece enquanto você dorme? A resposta, como sempre, é pública, documentada e perfeitamente ignorada.