A Seleção Brasileira detém vinte e quatro jogos sem perder na primeira fase de Copas do Mundo, sequência iniciada em 1998 e que atravessou seis mundiais consecutivos. É a maior marca da história do torneio, um número que envergonha qualquer planilha de marketing da CBF e qualquer discurso eleitoreiro de dirigente. Enquanto o futebol brasileiro afunda em escândalos contábeis, pixulecos sob a mesa e federações estaduais que parecem capitanias hereditárias, o que sustenta o mito amarelo não é a gestão, é o talento bruto do moleque que aprendeu a jogar na várzea, longe das mãos engomadas dos cartolas.

A Alemanha vem na cola, com vinte e dois jogos invictos na mesma fase. Em 2026, no mundial dos três anfitriões, os tetracampeões europeus podem alcançar ou ultrapassar o feito. E aqui mora a ironia deliciosa: os alemães, herdeiros de uma escola técnica milimetricamente planejada, perseguem um recorde construído pelo improviso tropical, pela ginga que nenhuma metodologia consegue replicar. É o cálculo prussiano correndo atrás da poesia carioca, e o resultado dessa corrida diz mais sobre o futebol que mil palestras de coach motivacional.

Vale lembrar como esse recorde nasceu. A última derrota brasileira em fase de grupos foi contra a Noruega, em 1998, jogo que ainda hoje desperta suspeitas de tantos detalhes esquisitos. De lá para cá, vieram o pentacampeonato em 2002, o vexame doméstico de 2014 que ninguém esquece, o tropeço para a Bélgica em 2018, a humilhação para a Croácia em 2022. Em todas essas tragédias, a primeira fase passou ilesa. O Brasil cai nas eliminatórias do mata-mata, quase nunca antes, porque é nesse momento que o talento individual encontra equipes europeias organizadas e o castelo de areia desmorona.

Olhe a contabilidade do espetáculo: a CBF arrecada centenas de milhões em patrocínios, cotas televisivas e direitos de imagem, e devolve ao torcedor o quê? Ingressos absurdos para amistosos vazios, dirigentes que viajam de jatinho com a mulher e o cunhado, treinadores estrangeiros contratados às pressas para encobrir o vazio de projeto. O recorde invicto na fase de grupos é a única coisa que ainda salva o balanço moral dessa empresa familiar disfarçada de entidade esportiva. Sem ele, sobrariam apenas balanços patrimoniais ocultos e contratos de assessoria com valores que envergonhariam qualquer estatal.

O torcedor paga a conta inteira. Paga pela camisa oficial que custa quase um salário mínimo, paga pelos pacotes de pay-per-view, paga pelos impostos embutidos em cada cerveja consumida durante o jogo, paga pelo Bolsa Atleta de uns, pela Lei de Incentivo de outros, pela isenção fiscal das confederações. E recebe em troca a esperança teimosa de que onze rapazes consigam, com pernas e pulmão, manter de pé um patrimônio simbólico que os ternos de Brasília e os blazers do Rio já tentaram destruir de todas as maneiras possíveis.

Se a Alemanha tomar o recorde em 2026, não será derrota apenas dos jogadores. Será o atestado público de que décadas de mau gerenciamento, nepotismo federativo e omissão regulatória finalmente venceram a resistência heroica da matéria-prima brasileira. O moleque da várzea aguentou o quanto pôde. O cartola, esse, segue invicto na arte de transformar paixão popular em conta bancária pessoal. E o recorde, no fim, é só mais uma vela acesa para um santo que os fiéis insistem em adorar enquanto os sacerdotes vendem as oferendas pelos fundos da igreja.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.