Um capitão da Polícia Militar do estado de São Paulo acordou certa manhã de agosto de 2023 para descobrir que, segundo a Jovem Pan, era suspeito de participação no assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Não havia prova. Não havia indiciamento. Não havia nem investigação que o mencionasse. Havia, isto sim, um erro de identificação, aquele tipo de equívoco que qualquer redação comete quando o apetite pela pauta grande supera o rigor com o dado pequeno. A Justiça de São Paulo, ao condenar a emissora a indenizar o oficial em R$ 15 mil, fez exatamente o que deveria fazer: responsabilizou quem errou pelo dano que causou. Ate aqui, nenhuma surpresa. A surpresa está no contexto, naquilo que o processo revela sobre a mecânica invisível que governa como o caso Marielle é tratado na imprensa brasileira há anos.
O caso Marielle Franco se tornou, desde 2018, uma espécie de propriedade simbólica disputada com ferocidade. Há um lado que o usa como munição política permanente, como prova de que o Estado brasileiro assassina ativistas negras e que os mandantes estão na cúpula do poder conservador, e há um lado que ora tenta minimizá-lo, ora tenta reinterpretá-lo, ora simplesmente se enreda nele sem querer. A Jovem Pan pertence ao segundo campo por vocação editorial, e foi exatamente por tentar navegar nessa narrativa, provavelmente querendo conectar nomes do universo da segurança pública ao crime, que escorregou na própria ambição. Quando a imprensa abandona o fato verificado em nome do enquadramento desejado, o resultado é sempre o mesmo: alguém inocente leva um tiro de festim e a emissora vai ao tribunal explicar o que quis dizer.
Há uma lógica cristalina aqui que vale enunciar com precisão: se você afirma que X fez Y, e X não fez Y, então você mentiu sobre X. Não importa se a intenção era outra, não importa se o clima editorial do momento tornava aquela afirmação palatável, não importa se outros suspeitos existem e o caso é complexo. A premissa era falsa, a conclusão foi injusta, e o dano foi real. Um homem teve seu nome associado a um assassinato de alto impacto político sem que houvesse fundamento algum para isso. O tribunal reconheceu o óbvio. A indenização de R$ 15 mil, aliás, é notavelmente módica para o tipo de dano causado, mas isso é conversa para outro dia.
O que o episódio ilumina com crueldade é a promiscuidade entre pauta e narrativa que contamina boa parte do jornalismo brasileiro, independentemente do espectro político. Quando um caso criminal vira bandeira, ele para de ser tratado como investigação e passa a ser tratado como liturgia. Os suspeitos corretos são aqueles que a liturgia exige. As conexões que se estabelecem obedecem à teologia do momento, não à cadeia de evidências. A Jovem Pan, tentando fazer jornalismo num campo ideologicamente minado por anos de narrativa pronta, pisou numa mina e levou a explosão no rosto. Poderia ter acontecido a qualquer veículo que tentasse fazer o mesmo sem checar o que tinha nas mãos.
Pergunte-se quem se beneficia de manter o caso Marielle em permanente estado de ebulição, com novos nomes sendo jogados periodicamente na fogueira pública, com conexões sendo sugeridas antes de serem provadas, com suspeitos de segunda e terceira linha virando manchete por horas até o desmentido chegar, silencioso, na página seis dois dias depois. Beneficia-se quem converte o luto em capital político. Beneficia-se quem precisa do inimigo identificado, nomeado, exibido, para que a narrativa de perseguição institucional permaneça viva e rentável. A imprensa, nesse processo, não é protagonista: é instrumento. Às vezes instrumento consciente, às vezes apenas ansioso demais para agradar ao zeitgeist. O capitão paulista, que não tinha nada a ver com o crime, foi o preço que a Jovem Pan pagou por não entender esse mecanismo antes de apertar o botão de publicar.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.