Existe uma contradição que dói de ver, não pelo lado político, mas pelo lado intelectual. Um homem passa décadas produzindo obra densa, controversa, irregular como todo pensamento genuíno é irregular, acumulando volumes sobre filosofia, epistemologia, história das ideias, e o que sobrevive dele, três anos após a morte, não são as ideias, não é o método, não é sequer a postura intelectual. O que sobrevive são os posts. Os tuítes. Os vídeos curtos. Os xingamentos geniais ou nem tanto. E esses fragmentos circulam agora como granadas em brigas de playground entre facções de um campo político que se despedaça em ego, ressentimento e disputa por protagonismo sem nenhum princípio substantivo em jogo.

O mecanismo é precisamente o oposto do que qualquer herdeiro legítimo faria. Um discípulo genuíno lê, absorve, critica, constrói sobre os alicerces do mestre, mesmo quando discorda, especialmente quando discorda. O que se vê nas redes é outra coisa: é o saque arqueológico. Mergulha-se no arquivo de posts, extrai-se a frase mais cortante, lança-se contra o adversário do momento como se isso fosse argumento. Não é argumento, é o equivalente digital de bater com a cabeça do defunto em alguém vivo. E o defunto, dadas as suas tendências polêmicas em vida, prestava-se bem a essa função, o que é uma tragédia particular: um pensador de qualquer mérito real merece adversários e herdeiros à altura. O que ele ganhou foi uma claque que transforma obra em meme e meme em identidade tribal.

A lógica por trás disso não é nova. Quando um movimento político perde a substância, quando o que restava de coerência doutrinária se evapora na ausência do líder que organizava o campo magnético, o que sobra é o folclore. E o folclore precisa de santos, de relíquias, de milagres portáteis. A canonização de um intelectual pelo populismo de direita segue o mesmo padrão que a esquerda aplicou durante décadas com seus próprios mortos convenientes: retira-se o que incomoda, amplifica-se o que mobiliza, ignora-se qualquer complexidade que exija esforço intelectual para ser processada. O pensador vira ícone. O ícone vira platô. O platô vira guerra de egos onde ninguém de fato leu nada, mas todo mundo tem uma citação na manga.

Há aqui também uma dimensão de poder que merece atenção. Quem controla o legado controla a narrativa. E em campos políticos fragmentados, onde não há mais um centro de gravidade vivo que distribua autoridade e invalide interpretações espúrias, qualquer um pode se arvorar intérprete oficial do morto. É uma disputa por herança sem testamento claro, onde os herdeiros mais barulhentos costumam ser precisamente os menos qualificados para o inventário. O resultado é previsível: o legado se fragmenta em facções, cada facção carrega seu fragmento como bandeira, e o conjunto do pensamento original desaparece sob o peso das guerras intestinas dos que dizem homenageá-lo. A história registra esse padrão com regularidade deprimente, dos estôicos aos escolásticos, dos iluministas aos marxistas: o mestre nunca sobrevive intacto aos discípulos apressados.

O que se perdeu, e isso é o diagnóstico real por trás do espetáculo, é a distinção entre usar um pensamento e exibir um troféu. Usar um pensamento exige trabalho: leitura, digestão, aplicação, teste contra a realidade, revisão quando a realidade resiste. Exibir um troféu não exige nada além de uma boa memória para frases de efeito e disposição para o combate retórico vazio. O campo bolsonarista nas redes optou pelo troféu. E o troféu, por definição, é do vencedor da briga, não de quem entendeu o jogo. Assim, o pensador que passou a vida inteira diagnosticando exatamente esse tipo de superficialidade intelectual organizada tornou-se, postumamente, sua própria ilustração mais perfeita.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.