Existe um bicho nas montanhas do Himalaia que resolve, sozinho, problemas que mil secretarias adjuntas não resolveriam em mil anos. Pesa entre vinte e cinco e cinquenta e cinco quilos, vive a quatro mil metros de altitude, suporta menos quarenta graus, salta quinze metros na horizontal e devora carneiros selvagens duas, três vezes maiores que ele. Não tem plano de carreira, não tem auxílio térmico, não pediu licença ao Ibama para existir. O leopardo das neves simplesmente é, e ao ser, expõe pelo contraste a falência completa do animal humano organizado em rebanho estatal.
Observe a engenharia. A pelagem cinza prateada com rosetas escuras não foi desenhada por nenhum comitê de especialistas pagos para entregar relatório em PowerPoint. Ela emergiu da única coisa que produz ordem genuína no mundo, que é a pressão silenciosa do real sobre quem precisa comer ou morrer. A cauda longa, quase do tamanho do corpo, funciona como leme nos saltos pelos paredões e como cobertor durante o sono. As patas largas servem de raquete na neve. As narinas amplas aquecem o ar gelado antes que chegue ao pulmão. Cada milímetro do bicho responde a uma pergunta concreta da paisagem, e nenhuma comissão votou nada.
A caçada é uma aula de economia que nenhuma faculdade ensina. O felino estuda a presa por horas, calcula o vento, calcula o ângulo, calcula o custo energético do bote. Erra mais do que acerta, e quando erra, paga o preço na própria carne, perde caloria que não vai recuperar tão cedo naquele deserto branco. Não existe socorro, não existe pacote de estímulo, não existe banco central felino imprimindo carneiro selvagem para cobrir o prejuízo do mau caçador. Quem falha emagrece, quem emagrece morre, e a espécie segue afinada porque a seleção é cruel e honesta, não simpática e mentirosa.
Compare agora com a fauna que se autointitula civilizada. O homem do vale precisa de subsídio para plantar, de subsídio para não plantar, de seguro safra, de crédito subsidiado, de perdão de dívida agrícola a cada ciclo eleitoral, de cota, de barreira tarifária, de ministério da agricultura, de ministério do desenvolvimento agrário, de agência reguladora e de três sindicatos. Tudo isso para produzir, com prejuízo permanente socializado, aquilo que o leopardo resolve sozinho com quatro patas e um cérebro do tamanho de uma laranja. A diferença não está na inteligência. Está na ausência, no caso do bicho, de um aparato parasitário que vive de inventar problema para vender solução.
Há ainda a lição moral, que é a mais incômoda. O leopardo das neves não pede licença para ser predador, não se desculpa por sua natureza, não escreve manifesto explicando por que precisa do carneiro azul. Ele simplesmente cumpre o que é, com a dignidade que só os animais e as crianças pequenas ainda têm, antes que o mundo lhes ensine a fingir. Enquanto isso, o bípede de gravata produz seminário sobre sustentabilidade num hotel cinco estrelas, voa de jato executivo para a próxima conferência climática e cobra imposto do caminhoneiro para financiar a passagem. Quem é o predador civilizado nessa história, e quem é o selvagem, fica como exercício para o leitor.
A montanha não vota, não arrecada, não emite título da dívida e mesmo assim sustenta cabra, carneiro, marmota, lobo e leopardo numa coreografia que funciona há dezenas de milhares de anos sem qualquer plano plurianual. Talvez seja por isso que tantos burocratas detestam a natureza intocada. Ela é a prova viva de que a ordem existe sem decreto, de que a hierarquia se estabelece sem concurso público, e de que o equilíbrio dispensa mediador remunerado. Um gato manchado num penhasco gelado constrange, pelo simples fato de existir, todo o edifício que cobra pedágio para nos ensinar a caminhar.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.