Toda vez que aparece nos jornais um animal "raríssimo, quase nunca visto, dependente de florestas preservadas", o leitor experiente já sabe que não está diante de uma reportagem de zoologia, e sim de uma peça publicitária para o próximo decreto. O felino das sombras é o protagonista perfeito: ninguém o vê, ninguém o conta, ninguém o fotografa direito, mas todos juram que ele existe e que está prestes a desaparecer caso o contribuinte não abra a carteira. É o santo padroeiro da burocracia ambiental, aquele cuja imagem nunca aparece na procissão, mas cuja festa custa caríssimo.

Note o silogismo cru por trás da matéria fofa. Premissa um: o bichinho depende de floresta intocada. Premissa dois: floresta intocada depende de fiscalização, demarcação e financiamento perpétuo. Conclusão inevitável: precisamos de mais cargos, mais multas, mais convênios, mais cooperação internacional, mais fundos verdes, mais auditorias de auditorias. O gato selvagem virou, sem saber, funcionário público de carteira assinada, e seu salário sai do bolso de quem nunca pisou na mata e jamais pisará.

Siga a trilha do dinheiro e o encantamento se desfaz rapidinho. Quem recebe pelos relatórios? As mesmas três ou quatro ONGs credenciadas que rodam o circuito há trinta anos, com sede em bairros nobres e diretoria recheada de ex-ministros. Quem paga? O produtor rural que descobre, num belo dia, que sua propriedade foi reclassificada como corredor ecológico do tal felino e agora vale metade. O caboclo que tirava sustento da terra vira invasor da própria casa, enquanto o doutor de Genebra emite certificado de conservação e cobra em euro. O bicho some, o boleto chega.

Há um truque retórico antigo aqui, e é bom nomeá-lo. Quando se quer expandir poder sobre a propriedade alheia, escolhe-se sempre um símbolo que ninguém pode contestar sem parecer monstro: a criança, a baleia, o índio idealizado, o felino misterioso. Quem ousaria dizer que prefere a liberdade do vizinho à sobrevivência do gatinho mimado da capa da revista? Ninguém. E é exatamente nessa chantagem afetiva que se ergue o edifício regulatório inteiro, tijolo por tijolo, hectare por hectare, até que metade do território nacional esteja oficialmente fora do alcance de quem o habita.

O mais irônico é que florestas verdadeiramente preservadas, em qualquer canto do mundo, são quase sempre aquelas com dono claro, com cerca, com escritura, com alguém interessado em que a árvore continue de pé porque dela tira renda. Onde tudo é "de todos", tudo é de ninguém, e o resultado conhecemos: queimada, invasão, garimpo clandestino sob o olhar piedoso do fiscal que pousa de helicóptero para a foto. O felino raro não precisa de mais Estado em cima dele. Precisa que parem de transformá-lo em desculpa para tomar o que é dos outros.

Então da próxima vez que vier a manchete enternecida sobre o bichinho que vive nas sombras, faça o exercício simples e devastador: pergunte quem está pagando a conta da reportagem, quem vai assinar o próximo edital, quem vai ganhar diária para ir contar pegada na mata, e quem vai perder a escritura no cartório. O gato continuará invisível, como sempre foi. O confisco, esse, ficará bem visível no extrato bancário do mês que vem.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.