Existe uma contradição que a indústria tecnológica prefere que você nunca perceba: o produto que melhor cumpre sua função é exatamente aquele que menos aparece. O fone que funciona de verdade some da sua consciência em minutos, integra-se ao movimento do corpo, encaixa sem apertar, dura a bateria que precisa durar e não exige que você pense nele enquanto trabalha, caminha ou atravessa o caos do metrô. É, portanto, o produto mais inimigo do marketing que existe, porque o bom marketing vive do desejo de ter, e o desejo de ter pressupõe que você esteja o tempo todo lembrando que tem.
A lógica da vaidade tecnológica é antiga como o luxo romano e funciona com a mesma mecânica: o objeto caro não é comprado pela função, é comprado pelo sinal que emite. O imperador que usava púrpura não estava preocupado com a durabilidade do tecido, estava preocupado com o que os outros liam naquela cor. O jovem de vinte e cinco anos que compra o fone over-ear com cancelamento de ruído de última geração, de marca com logotipo reconhecível em qualquer aeroporto do mundo, não está, em geral, procurando ouvir música com mais fidelidade, está procurando ser visto ouvindo música com mais fidelidade. A diferença é filosófica antes de ser econômica, e ela custa, dependendo da marca, entre oitocentos e três mil reais.
O que o jornalismo de tecnologia raramente diz, porque vive de relações com as mesmas empresas que cobre, é que o ponto de retorno decrescente em áudio pessoal de consumo é atingido muito antes do que qualquer publicidade sugere. A partir de determinada faixa de preço, que não é a faixa mais cara, o ganho real de experiência é mínimo, mensurável apenas em testes controlados por pessoas cujo ouvido foi treinado para isso, e praticamente irrelevante para qualquer uso cotidiano. O que o consumidor compra na diferença entre o fone de trezentos reais e o de dois mil não é qualidade de som apreciável no ônibus das sete da manhã: é a narrativa de que comprou. E narrativa, como qualquer bem intangível produzido em escala industrial, tem custo marginal próximo de zero para quem vende e preço psicológico altíssimo para quem compra.
O mercado, quando funciona honestamente, que é raro e exige concorrência real, deveria resolver esse problema por si mesmo, porque o produto que genuinamente serve seria preferido ao produto que apenas parece servir. Mas o mercado de eletrônicos de consumo não opera em concorrência honesta, opera em oligopólio de marca, ciclo de obsolescência programada e ecossistema fechado projetado para tornar a troca cara e o abandono da plataforma custoso. A escolha do consumidor não é livre no sentido real da palavra: é livre entre as opções que o ecossistema permite que existam, a um preço que o ecossistema decide que será praticado. Isso não é capitalismo de mercado, é capitalismo de corporação, que são animais radicalmente diferentes e que a imprensa financeira costuma confundir com a mesma intenção com que um advogado de defesa confunde réu com vítima.
A notícia que motiva esta análise diz, com toda a singeleza de quem descobriu a roda às três da tarde de uma terça-feira, que o melhor fone para o dia a dia é aquele que some da sua cabeça depois de alguns minutos de uso. Isso é, em sua essência, uma definição funcional de ferramenta, e deveria ser óbvio para qualquer pessoa que pensa com a própria cabeça antes de abrir o aplicativo de resenhas patrocinadas. A ferramenta que serve bem é aquela que desaparece no gesto, que se torna extensão do corpo sem exigir atenção, que resolve o problema para o qual foi criada sem criar problemas novos. O martelo que te faz pensar no martelo é um martelo ruim. O fone que te faz pensar no fone é um fone ruim. Isso vale para qualquer preço. Vale, inclusive, para produtos que custam o salário mínimo de um trabalhador brasileiro tributado até o tutano por um Estado que depois ainda cobra imposto do imposto que já cobrou.
No fim, o que esta história revela não é nenhuma descoberta sobre tecnologia de áudio. Revela que o consumidor médio foi tão sistematicamente treinado a confundir custo com valor, aparência com função e desejo fabricado com necessidade real, que alguém precisou escrever um artigo explicando que ferramenta boa é ferramenta que funciona. Quando a obviedade vira manchete, o problema não é a informação que falta: é o julgamento que foi retirado de circulação.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.