Tem um senhor de 71 anos vivendo sozinho no topo de uma montanha, com cabras, queijo artesanal e a dignidade intacta de quem nunca precisou pedir licença para existir. A notícia circula como curiosidade, como perfil inspirador de revista de fim de semana, como conteúdo para aventureiros no Instagram. Mas ninguém, absolutamente ninguém nos grandes veículos, se deteve para fazer a pergunta óbvia: o que diz sobre nós o fato de que a autossuficiência de um único homem seja tratada como fenômeno extraordinário?

Há algo profundamente revelador na estranheza que sentimos diante desta cena. Gerações inteiras de seres humanos viveram exatamente assim, ou perto disso, sem que ninguém escrevesse uma reportagem celebratória sobre o feito. O camponês que plantava, colhia, criava animais e fabricava o próprio alimento não era notícia; era a norma. A norma foi destruída, sistematicamente, pela construção de uma arquitetura de dependência tão sofisticada que hoje a autonomia parece heroísmo, e o heroísmo parece loucura. Quando a normalidade se torna extraordinária, é porque a anormalidade se tornou estrutural.

O mecanismo é simples, ainda que poucos tenham paciência de olhar para ele com honestidade. O Estado moderno não existe para proteger o cidadão; existe para torná-lo gerenciável. Um homem que produz seu próprio alimento, que não precisa de subsídio, de fila de banco, de cartão de benefício, de convênio médico estatal, de pensão compulsória, é um homem que escapa do cadastro. E o que não está no cadastro não pode ser controlado, tributado, mobilizado eleitoralmente nem recondicionado via política pública. A liberdade real, a que não depende de autorização, é exatamente o tipo de liberdade que os arquitetos do bem-estar coletivo não conseguem suportar, porque ela demonstra, com a crueldade dos fatos, que o serviço nunca foi necessário.

Repare bem na linguagem usada para descrever este homem: "isolado", "solitário", "fora da sociedade". O vocabulário não é neutro; ele carrega o diagnóstico embutido. Quem saiu do rebanho precisa ser descrito como carente de algo que o rebanho oferece. Nunca como alguém que fez um balanço honesto entre o que a sociedade oferece e o que ela cobra, e concluiu que o negócio não vale. A vida boa, na cabeça dos comentaristas modernos, exige conexão com as instituições, participação nos rituais coletivos de produção e consumo, uma tela sempre acesa e uma conta em algum aplicativo de delivery. Um homem com cabras e queijo, que dorme quando escurece e acorda com o sol, não se encaixa no modelo de desenvolvimento humano aprovado pelos organismos internacionais. Logo, é "isolado".

A geração que diz se "inspirar" neste homem é a mesma que, na segunda-feira, vai defender mais regulação, mais imposto, mais programa social, mais intervenção estatal na economia. A contradição não incomoda porque não é percebida. A admiração é estética, não filosófica; é o mesmo impulso que leva o urbano de classe média a comprar granola orgânica no supermercado como gesto de rebeldia contra o sistema industrial, enquanto financia, via imposto, o aparato burocrático que garante a existência de ambos. Admirar a liberdade alheia sem exigir a própria não é admiração. É entretenimento.

O velho das cabras não escreveu manifesto, não deu entrevista para falar de saúde mental nem monetizou sua autonomia em curso online de mindfulness pastoral. Ele apenas fez o que qualquer pessoa que ainda pensa com clareza sabe ser a condição básica da vida digna: tornou-se, tanto quanto possível, senhor de si mesmo. Não por ideologia, não para inspirar ninguém, mas porque a alternativa, que é a vida mediada, supervisionada, dependente e tributada do cidadão moderno, simplesmente não valia o preço cobrado. O escândalo não é que este homem exista. O escândalo é que precisemos de uma reportagem para lembrá-lo.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.