A notícia nos chega embalada em papel de presente: agora você pode apostar na Mega-Sena pelo celular, sem sair de casa, com toda a "segurança" que o aplicativo oficial da Caixa Econômica Federal oferece. O jornalismo de serviço, sempre solícito, ensina passo a passo como transferir seu dinheiro para o Estado com mais conforto e praticidade. Faltou só o tutorial de como agradecer de joelhos. Ninguém se pergunta o óbvio: seguro para quem? Para o apostador que tem uma chance em cinquenta milhões de ver a cor do prêmio, ou para a Caixa, que embolsa a diferença entre o que arrecada e o que paga com a regularidade de um relógio suíço?
A loteria é, na sua essência, o imposto mais genial já concebido por um governo. É o único tributo que o cidadão paga sorrindo e ainda agradece pela oportunidade. Não precisa de fiscal, não gera revolta popular, não exige aprovação no Congresso para ser aumentado. O sujeito entrega voluntariamente uma fração do seu salário, semana após semana, e sai convencido de que fez um investimento. Se alguém montasse esse esquema no setor privado, seria preso por estelionato. Como é o Estado, chamam de "programa social". A matemática é simples e impiedosa: a Caixa devolve em prêmios menos da metade do que arrecada. O resto vai para o governo gastar como bem entender, sob o eufemismo encantador de "repasses para áreas sociais". Traduzindo do burocratês: seu dinheiro financia a máquina que você mesmo diz detestar, e você paga a conta cantando.
O que a digitalização faz não é tornar a aposta mais segura para você. É torná-la mais eficiente para o operador do esquema. Quando a lotérica ficava longe ou a fila estava grande, a preguiça funcionava como uma espécie de freio natural contra a tolice. Agora eliminaram até esse último obstáculo. O app está ali, no bolso, a dois toques de distância, vinte e quatro horas por dia. É o equivalente a instalar uma roleta dentro da geladeira: você só precisa abrir a porta. A Caixa sabe perfeitamente o que está fazendo. Cada barreira removida entre o cidadão e a aposta significa milhões a mais no caixa. O design não é acidente, é engenharia de captação. E vendem isso como conveniência.
Repare na linguagem. Dizem "aposte com segurança", como se o problema da loteria fosse o risco de fraude e não o fato de que o jogo é matematicamente construído para você perder. Dizem "acompanhe seus jogos", como se houvesse estratégia a ser monitorada numa extração puramente aleatória. Dizem "evite erros antes de confirmar", como se o único erro possível não fosse ter aberto o aplicativo. Todo o vocabulário é calibrado para criar a ilusão de controle num ambiente onde o apostador não tem controle nenhum. É a mesma técnica dos cassinos de Las Vegas, que distribuem bebidas grátis e eliminam relógios das paredes. A diferença é que o cassino é privado e precisa seduzir; o governo tem o monopólio legal do jogo e ainda assim gasta fortunas em marketing. Pergunte-se por quê.
O verdadeiro escândalo não está no app, está no monopólio. No Brasil, se você quiser organizar uma rifa beneficente no seu bairro, precisa de autorização federal. O cidadão comum é proibido de competir com a Caixa no negócio de separar tolos do seu dinheiro. O Estado reservou para si o direito exclusivo de explorar a esperança alheia, criminalizou a concorrência, e depois aparece na televisão dizendo que é tudo "para ajudar o esporte e a cultura". Se as loterias fossem realmente um serviço ao povo, o governo permitiria que qualquer empresa as operasse e deixaria o mercado reduzir as margens em favor do apostador. Não permite porque a margem é o ponto. O prêmio é o anzol; a arrecadação é o peixe. E o peixe, caro leitor, é você.
Então, da próxima vez que alguém lhe mostrar, orgulhoso, o aplicativo novinho da Mega-Sena instalado no celular, lembre-se de que está olhando para a versão digital de um dos negócios mais antigos do poder: vender esperança a varejo para financiar burocracia por atacado. A casa sempre vence, e neste caso a casa é o mesmo governo que cobra seu imposto de renda, sua contribuição sindical, seu ICMS, seu IPVA, e mais quarenta siglas que você nem sabe que existem. A diferença é que desta vez ele teve a elegância de deixar você apertar o botão sozinho.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.