Pesa menos que uma moeda de cinquenta centavos e ainda assim atravessa a história sem pedir auxílio emergencial. O musaranho etrusco, quando o critério é o peso, e o morcego abelha, quando a régua é o comprimento, disputam o título de menor mamífero do planeta. São criaturas que caberiam no bolso do colete de um deputado, e mesmo assim sobrevivem há milhões de anos sem precisar de comissão parlamentar de inquérito, sem programa de incentivo, sem cota racial, sem MP editada às pressas. A natureza, esse organismo que ninguém votou e ninguém regula, distribuiu a eles algo que nenhum gabinete consegue produzir: a obrigação de funcionar ou morrer.

Repare na lógica brutal do bicho. O coração do musaranho bate mais de mil vezes por minuto. Ele come o equivalente ao próprio peso por dia, todo dia, sem férias, sem licença, sem 13º. Se parar de caçar por algumas horas, morre. É a economia em estado puro, sem véu, sem retórica, sem porta dos fundos. Cada caloria gasta tem que ser recuperada. Cada movimento tem que pagar o seu custo. Quem não produz, perece. Compare isso, se tiver coragem, com o organismo lerdo que se chama administração pública, capaz de hibernar décadas vivendo do sangue alheio sem mover um músculo produtivo.

O ponto que a reportagem pasteurizada esconde é o seguinte: tamanho não é força, força não é virtude, e virtude, no reino animal como na economia, é simplesmente a capacidade de adaptar a estrutura ao ambiente sem trapacear. O dinossauro era enorme e sumiu. O mamute era colossal e virou pedaço de gelo em museu russo. Sobreviveram os bichinhos que aprenderam a se esconder, a correr, a economizar energia, a ocupar nichos que os gigantes desprezavam. Toda a história natural é um manifesto silencioso contra o gigantismo. E toda a história política é um esforço estatal para reescrever esse manifesto na marra.

Pois é exatamente o oposto que o poder ensina nas suas cartilhas. Lá, grande é bonito, grande é seguro, grande é justo. Banco grande demais para quebrar, empresa grande demais para falir, sindicato grande demais para auditar, ministério grande demais para fechar. Toda vez que um colosso desses cambaleia, o cidadão pequeno, esse musaranho fiscal de coração acelerado, é convocado a doar a sua caloria via imposto para manter o monstro de pé. Quem paga é sempre o invisível. Quem recebe é sempre o que aparece na foto do salão nobre, sorrindo, cortando fita, anunciando programa social com dinheiro que não é dele.

A natureza, no fundo, é radicalmente liberal e não pede licença para ser. Ela não consulta plenário, não abre edital, não faz audiência pública. Apenas testa, descarta, premia o que funciona. O morcego abelha caça insetos no escuro guiado por ultrassom porque desenvolveu, sozinho, uma tecnologia que nenhum subsídio replicaria. O musaranho sobrevive ao frio europeu reduzindo o próprio crânio no inverno, num feito que envergonharia qualquer plano de austeridade tucano. Tudo isso aconteceu sem decreto, sem lei orgânica, sem CPMF da biodiversidade. Aconteceu porque a alternativa era a extinção, e a extinção, ao contrário do orçamento federal, não admite remanejamento.

A lição, portanto, é desconfortável e por isso vai ser ignorada. Os pequenos não sobrevivem apesar de serem pequenos, sobrevivem porque foram forçados a ser eficientes. Os grandes não caem por azar, caem porque o tamanho desacoplado da função vira passivo. Onde existe proteção artificial, existe atrofia. Onde existe seleção real, existe vida. Da próxima vez que algum eloquente em terno escuro disser que precisamos de um Estado maior, mais robusto, mais presente, lembre do bichinho que pesa dois gramas e atravessou eras geológicas inteiras sem nunca ter ouvido falar em diário oficial. Quem paga a conta da grandeza forçada somos nós. Quem recebe o troco do gigantismo subsidiado, esse, jamais aparece nas fotos da extinção.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.