A cena é das mais antigas do planeta e, ainda assim, segue inédita para quem só conhece o mundo pela tela do celular. No crepúsculo de alguma floresta asiática, um calau de bico amarelo, sujeito robusto que parece um tucano que malhou na pandemia, espreita a saída dos morcegos das cavernas e os abocanha em pleno voo. Sem aviso prévio, sem audiência pública, sem nota de repúdio das entidades morcegas representativas. Apenas um bicho fazendo o que sempre fez, com a eficiência brutal que só existe onde ninguém inventou ainda uma secretaria para regular a coisa.

Repare na economia do gesto. O calau não estoca, não pede empréstimo subsidiado para comprar morcego, não exige isenção fiscal sobre quirópteros voadores. Ele calcula trajetória, antecipa o bater de asas, escolhe o instante exato em que a presa sai da boca da caverna e ataca. Tudo isso sem ter cursado lógica formal em universidade alguma. A premissa é simples, a noite cai, os morcegos saem, eu como; conclusão, jantar servido. Há mais raciocínio prático no bico desse pássaro do que em três anos de discursos parlamentares somados.

Há quem ache cruel. São os mesmos que comem hambúrguer industrial enquanto choram pelo morcego asiático, e que confundem documentário com manifesto político. A natureza não é cruel nem boazinha, ela simplesmente é. Cada coisa cumpre o que sua própria função determina, e o calau cumpre a sua sem precisar de relações públicas. Quem inverte essa ordem, quem trata o predador como vilão e a presa como vítima moral, está projetando no bicho a sentimentalidade adoecida das cidades, onde já se esqueceu que carne nasce de bicho morto e não da prateleira refrigerada.

Vale o contraste, e ele é doloroso. Enquanto a fauna selvagem resolve a equação alimentar em segundos, com energia própria e risco próprio, o homem moderno aceita pagar metade do que produz para que um terceiro, distante e anônimo, decida o que ele vai comer, quanto vai pagar e em que embalagem. Trocou-se a caça pelo imposto, a destreza pela burocracia, o instinto pelo aplicativo. E ainda se chama isso de progresso. O calau ri, se calau risse. Ele aprendeu, milhões de gerações atrás, que ninguém almoça de graça, e que esperar caridade do céu costuma terminar mal.

A imagem do pássaro caçando morcego no entardecer é bonita porque é verdadeira. Não há ali roteiro, propaganda nem narrativa construída por agência de comunicação. É só o real, em sua dureza limpa, lembrando que a vida funciona por causas e efeitos, não por boas intenções. Cada espécie sobrevive porque resolve seus próprios problemas, ou desaparece. Quando alguém promete resolver os problemas dos outros em troca de poder, geralmente é o início de um arranjo em que muitos pagam para que poucos comam, sem o trabalho honesto do calau.

No fim das contas, sobra a pergunta incômoda. Por que uma cena selvagem de bicho comendo bicho nos comove mais do que a planilha do orçamento público, onde o predador é invisível e a presa somos nós? Talvez porque na floresta o predador aparece de cara limpa, asas abertas, bico à mostra, e a gente respeita. Já o predador de gravata vem sorrindo, falando em justiça social, e a gente agradece. O calau é mais honesto. E, convenhamos, tem melhor pontaria.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.