A pauta nacional, num país que tem juros de dois dígitos, dívida pública explodindo e uma carga tributária que faria corar qualquer coletor medieval, é discutir nome de quatro letras inspirado na lua. Não é piada, é manchete. A redação de um veículo que se vende como sério separou tempo, repórter, editor e diagramador para informar ao leitor brasileiro que existe um nome feminino curto, doce, elegante, que anda encantando famílias. Encantando, repare na escolha do verbo. O vocabulário da feitiçaria mercadológica entrou pela porta da frente e ninguém estranhou.
Quem paga essa brincadeira? O leitor, sempre o leitor, com seus minutos de atenção drenados por uma máquina de cliques que precisa empurrar volume para justificar contrato publicitário. Quem recebe? A cadeia inteira do tráfego pago, o anunciante que aparece ao lado da matéria, a métrica do gerente de redação que precisa bater meta de pageview no fim do mês. O nome da menina é pretexto. O produto verdadeiro é o seu tempo, vendido a peso para terceiros enquanto você acredita estar se informando sobre o mundo.
Há ainda a camada mais sutil, e por isso mais útil ao poder. Enquanto se discute se a criança vai se chamar isto ou aquilo, não se discute por que a cesta básica subiu trinta por cento em três anos, por que o orçamento secreto cresce no escuro, por que a estrutura tributária pune quem produz e premia quem mama na teta pública. A imprensa adestrada aprendeu o velho truque do circo romano: distribua espetáculo barato e o povo esquece que o pão sumiu. A diferença é que hoje o espetáculo não exige gladiador, basta um título fofo sobre lua e menina doce.
Note como a linguagem foi cuidadosamente lavada. Personalidade doce, escolha elegante, nome que encanta. É o dicionário das revistas de salão de cabeleireiro aplicado ao jornalismo geral, e ninguém pisca. A consequência lógica desse processo é simples e brutal: se as palavras perdem peso, o pensamento perde gume. Um povo que se acostuma a ler bobagem com cara de notícia logo aceita aceitar bobagem como argumento de política pública. Não é coincidência que os mesmos veículos que dedicam página inteira ao nome da semana tratem como detalhe técnico um aumento de imposto que tira meses de salário do trabalhador.
O escândalo, portanto, não é o nome. Que se chame a criança como bem entenderem os pais, é direito sagrado da família e ponto final. O escândalo é o uso industrial da futilidade como cortina de fumaça. Cada centímetro de coluna gasto com lua e doçura é um centímetro a menos para perguntar quem assinou o quê, quem nomeou quem, quem ficou rico com qual contrato. Há uma economia política da distração, e ela funciona porque dá lucro a quem manda e custa caro a quem obedece.
Fica o conselho prático ao leitor que ainda tem dignidade intelectual: quando vir manchete encantadora sobre tema irrelevante, pergunte de imediato o que ela está escondendo. Olhe para a página ao lado, veja o que passou batido, procure o número que ninguém quis explicar. A fofura é sempre o embrulho. O conteúdo, esse, raramente é doce.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.