Comecemos pelo fato banal e revelador, daqueles que denunciam mais do que pretendem. Uma matéria nacional anuncia, com pompa de manchete, que Stella é o "nome de seis letras que significa estrela", e logo no subtítulo confessa, sem corar, que o tal nome tem cinco letras. Cinco. Conte nos dedos: S, T, E, L, L, A, e perceba que até para contar a editoria já terceirizou o trabalho. Se a redação não dá conta da aritmética do alfabeto, imagine da aritmética da República. Mas o ponto não é a gralha tipográfica, é o sintoma: vivemos numa era em que a forma do anúncio importa mais que o conteúdo do anúncio, e o leitor pagou, com seus minutos, para ser informado errado sobre uma trivialidade.
Por que uma reportagem inteira sobre o nome Stella? Porque há mercado, e onde há mercado há quem lucre. Sites de bebê, listas de tendências, influenciadoras de maternidade, cartórios que cobram averbação, lojinhas de quartinho personalizado com letrinha de madeira pintada de rosê, tudo isso forma uma cadeia produtiva discreta que se alimenta da ansiedade dos pais de primeira viagem. A mãe grávida no terceiro trimestre é o consumidor mais cativo do varejo emocional brasileiro, e ninguém vai escrever uma matéria explicando que Maria continua sendo Maria e que nenhum nome, em si, acrescenta uma vírgula ao caráter da criança. Não dá clique, não dá afiliado, não dá engajamento.
Repare na engenharia da retórica: "som internacional", "presença iluminada", "ligado ao céu". É a velha técnica do mascate de feira que envernizava cobre e vendia como ouro, só que agora com lay-out responsivo e otimização para mecanismo de busca. O brasileiro, colonizado por dentro, acredita piamente que uma vogal latinizada eleva a estirpe da filha, como se trocar o final em "a" aberto por "a" anglo-saxônico abrisse passaporte. Não abre. Abre conta na papelaria que vende a plaquinha personalizada por noventa e nove reais, e abre uma fila no cartório que cobra a certidão extra. A estrela, no fim, ilumina o caixa.
Há ainda a questão lógica, que ninguém quer enfrentar porque dói. Se um nome é "encantador" porque significa estrela, então todo nome que signifique estrela deveria encantar igualmente, e nesse caso Estela, com a mesma raiz e a mesma luz, deveria estar no pódio. Não está. Por quê? Porque o critério oculto não é o significado, é o verniz estrangeiro. O argumento da matéria se dissolve no primeiro silogismo honesto: se o que encanta é o significado, qualquer sinônimo serve; se só serve o anglicizado, o que encanta não é o significado, é o esnobismo travestido de poesia. Pronto, a tese caiu sozinha, sem que precisássemos derrubar.
E aqui entra a parte que mais incomoda: essa indústria do nome perfeito é o capítulo de berço de uma guerra cultural maior, que ensina o brasileiro desde a maternidade a desprezar o seu, a fantasiar o do outro, a buscar pertencimento em sílabas emprestadas. Trocaram o santo do batistério pela estrela do calendário gregoriano comercial, trocaram a avó Conceição pela tia Stella, e venderam isso como progresso. Não é progresso, é catálogo. E catálogo, todo mundo sabe, é feito para vender, não para iluminar. A luz que importa numa criança não cabe em cinco letras nem em seis, cabe em educação, exemplo e liberdade, três coisas que nenhuma reportagem patrocinada vai jamais te entregar.
No fim, fica a pergunta de sempre, a única que importa quando alguém te oferece encantamento de graça: quem paga e quem recebe? Paga o leitor com sua atenção, paga o casal com sua insegurança, paga a criança que crescerá explicando o nome no balcão do banco pelo resto da vida. Recebe o portal com o clique, recebe o anunciante com o lead, recebe a indústria do enxoval com a venda casada. A estrela brilha, sim, mas não no céu da menina. Brilha na planilha de quem teve a esperteza de transformar a maternidade em vitrine.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.