Chegou ao mercado brasileiro mais um sedã chinês que copia descaradamente as linhas dos alemães, com grade hexagonal, faróis afilados e aquele ar de executivo de banco que envelheceu mal. Custa cento e quinze mil reais. Parece pechincha até o consumidor descobrir que, na origem, o mesmo automóvel sai por menos da metade. O resto, esse abismo entre o preço de fábrica e o preço de revenda, não é margem do empresário, não é frete, não é seguro marítimo. É pedágio. Pedágio cobrado por quem não construiu estrada nenhuma.

Faça a conta com lápis e papel, sem calculadora financeira nem planilha de consultor. O carro embarca em Xangai por algo perto de cinquenta mil reais. Atravessa meio mundo num porta-contêineres, paga combustível, tripulação, taxas portuárias, e ainda assim desembarca em Santos por uma fração do preço final. O salto monstruoso acontece no momento em que cruza a cancela aduaneira. Imposto de importação, IPI, ICMS, PIS, Cofins, e mais um séquito de siglas que existem para sustentar a burocracia que as inventou. O cidadão paga o carro duas vezes: uma para o fabricante, outra para o cartório invisível que carimba a nota fiscal.

O argumento oficial é sempre o mesmo, repetido com a solenidade de quem reza o terço. Precisamos proteger a indústria nacional. Precisamos preservar empregos. Precisamos garantir que as montadoras instaladas aqui não sejam massacradas pela concorrência desleal. Traduzindo do dialeto palaciano para o português comum: precisamos garantir que três ou quatro fabricantes continuem vendendo carro caro, ruim e atrasado tecnologicamente, enquanto o consumidor finge que escolheu. É a velha lógica do feudo, com selo de modernidade. O senhor da gleba não cobra mais em sacas de trigo, cobra em alíquota.

O detalhe que ninguém comenta nas reportagens elogiosas é o seguinte: cada real a mais que o brasileiro paga por esse sedã chinês não vai para a Volkswagen de São Bernardo, não vai para o operário do ABC, não vai para a inovação tecnológica do parque fabril nacional. Vai para o caixa único do Tesouro, que depois redistribui em propaganda institucional, cargo comissionado, viagem oficial e fundo eleitoral. A indústria protegida é a indústria do imposto, não a do automóvel. O resto é encenação para que o pagador da conta acredite que está sendo defendido enquanto é depenado.

Há uma ironia histórica que vale o registro. Países que abriram suas economias para carros importados nas décadas passadas, em vez de assistirem ao colapso da produção local, viram suas montadoras nativas se reinventarem ou morrerem com dignidade, dando lugar a fabricantes melhores. O Japão do pós-guerra não nasceu campeão automotivo porque foi protegido, nasceu porque foi obrigado a competir. Aqui, três quartos de século de tarifa altíssima produziram o quê? Carros caros, mal acabados, com tecnologia atrasada e câmbio que range. A proteção infantilizou a indústria e empobreceu o consumidor. Os dois perderam, e só o cobrador da tarifa saiu rindo.

Então, quando aparecer mais uma manchete celebrando a chegada de um chinês que custa cento e quinze mil reais e copia o luxo europeu, faça o exercício de imaginar quanto ele custaria sem a mordida. Sessenta mil, talvez setenta. Imagine a frota nacional renovada, imagine o trabalhador comprando um carro decente em vez de financiar uma sucata por sete anos. Depois pergunte por que isso não acontece. A resposta cabe num bilhete: porque alguém precisa que não aconteça, e esse alguém tem o monopólio da força para garantir que continue assim. O resto é folclore para iludir o passageiro.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.