O Instagram resolveu se reinventar em 2026 e a imprensa especializada, sempre pronta a confundir release corporativo com jornalismo, saiu correndo para anunciar a boa nova. O aplicativo, dizem, está mais "interativo", mais "personalizado", mais "centrado no usuário". Traduzindo do dialeto silicon valley para o português dos mortais: a engrenagem de extração de dados foi recalibrada, o algoritmo de captura de atenção ganhou músculo novo, e a experiência foi redesenhada para que você passe ainda mais tempo com o nariz colado na telinha. Quando uma empresa que vive de vender sua atenção a anunciantes anuncia que vai melhorar sua experiência, faça como o camponês esperto diante do fidalgo sorridente: conte os dedos antes do aperto de mão.

Convém lembrar a regra elementar do comércio digital, que qualquer criança deveria aprender antes do alfabeto: se o serviço é gratuito, a mercadoria é você. Não é metáfora, não é exagero retórico, é descrição literal do modelo de negócio. A receita da empresa não vem do usuário que rola o feed, vem do anunciante que paga para alugar pedaços do cérebro desse usuário. Toda atualização, toda mudança, toda pretensa melhoria de interface obedece a uma única lógica: maximizar o tempo de permanência, aprofundar o perfilamento, refinar o leilão de atenção. O resto é maquiagem, é a embalagem bonitinha do confisco voluntário das suas horas e dos seus desejos.

A palavra mágica desta safra é "personalização", termo que carrega consigo um truque semântico digno dos melhores ilusionistas de feira. O leigo ouve "personalização" e imagina que ele, soberano consumidor, vai customizar a ferramenta conforme sua vontade. A realidade é o inverso geométrico: é a ferramenta que personaliza você, que mapeia suas micro reações, que cataloga seus gostos com precisão de entomologista, que aprende a antecipar seus impulsos antes mesmo de você tê-los consciência. O algoritmo não serve ao usuário; o usuário é o material bruto sobre o qual o algoritmo trabalha. Confundir os dois polos dessa equação é o equivalente moderno ao boi achando que o matadouro foi construído para o seu conforto.

E o tal "espaço mais interativo, com foco na conexão direta entre usuários"? Isso já foi vendido em 2010, em 2014, em 2018, em 2022, sempre com as mesmas palavras, sempre com o mesmo sucesso de bilheteria entre os crédulos. A cada ciclo de seis meses surge um redesenho que promete devolver a "essência humana" da plataforma, como se houvesse algum dia uma essência humana ali e não apenas um sofisticado mecanismo de mineração comportamental disfarçado de álbum de família. Repetir a mesma promessa quebrada com roupa nova é o método mais antigo do mundo, e o fato de funcionar diz menos sobre a esperteza do vendedor do que sobre a memória curta do comprador.

Siga o dinheiro, sempre. Quem ganha com o redesenho não é o adolescente que posta selfie nem a senhora que compartilha receita de bolo. Quem ganha são os acionistas que veem o tempo médio de uso subir três pontos percentuais no próximo trimestre, são os anunciantes que pagam mais caro por públicos mais finamente segmentados, são os corretores de dados que vendem seu perfil psicométrico para campanhas eleitorais, seguradoras e bancos. Você, do outro lado, paga em moeda muito mais valiosa do que dinheiro: paga em horas que não voltam, em capacidade de concentração que se atrofia, em juízo crítico que se dissolve no scroll infinito. É o pior câmbio da história monetária, e o cliente vai fazendo fila para celebrá-lo.

A pergunta que ninguém faz, porque ninguém ensinou a fazer, é a mais simples de todas: por que uma empresa investe centenas de milhões em pesquisa de comportamento, neurociência aplicada e engenharia de persuasão para oferecer um serviço gratuito a bilhões de pessoas? A resposta, óbvia para quem ainda preserva dois neurônios em estado de comunicação, é que a generosidade não consta em planilha de balanço trimestral. O que consta é receita publicitária, capitalização de mercado, valor por usuário ativo. O novo Instagram não foi feito para você usar melhor; foi feito para usar melhor de você. Quem entende a diferença entre essas duas frases já está meio caminho andado para a liberdade. Quem não entende, continua achando que ganhou um presente sempre que recebe uma coleira nova.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.