Uma emissora afiliada da Globo resolveu, em pleno horário de audiência, tratar a Bíblia e a fé cristã com o mesmo respeito que se reserva a um objeto de curiosidade de museu, daqueles que as crianças tocam com um dedo e os adultos ignoram com um sorriso condescendente. O fato em si já seria notável se fosse isolado. Mas não é isolado, e é exatamente aí que o problema deixa de ser uma questão de gosto e se torna uma questão de estrutura de poder. O que se chama de "espírito crítico" nesse contexto é, na prática, uma hierarquia muito bem definida de quem pode ser ridicularizado e quem está protegido pelo silêncio conveniente da redação.
Existe um princípio elementar de lógica que qualquer estudante honesto aprende cedo: a regra que você invoca para atacar o adversário precisa ser a mesma que você aceita quando ela se volta contra você. Se a liberdade de expressão justifica o escárnio à Bíblia, ela justifica com igual vigor o escárnio ao Alcorão, ao Talmude, ao marxismo acadêmico e ao progressismo de departamento universitário. Quando se observa, porém, o cardápio real dessas emissoras, descobre-se que a coragem crítica tem uma tendência curiosa e matematicamente perfeita de apontar sempre para o mesmo alvo. Isso não é liberdade de expressão. Isso é seleção de alvos com critério político, embalada em papel de liberdade de expressão para parecer mais digestível.
O Brasil tem, segundo qualquer censo disponível, uma maioria esmagadora de população cristã. Estamos falando de dezenas de milhões de pessoas que, ao sintonizar a tevê nacional, assistem ao dinheiro do anunciante, em última instância saído do próprio bolso do consumidor, sendo utilizado para financiar a humilhação daquilo que consideram sagrado. Há aqui uma perversidade econômica que merece ser chamada pelo nome: o cidadão subsidia, via consumo, a propaganda que o despreza. É o equivalente moderno de pagar o carrasco para afiar o machado. Impérios caíram por menos contradição do que essa, e nenhum deles percebeu a tempo.
A questão que nunca é feita pelos próprios veículos de comunicação, por razões que não exigem investigação muito profunda, é a seguinte: quem financia, quem se beneficia e quem dita a linha editorial dessa hostilidade? Concessões públicas de radiodifusão no Brasil existem por força de autorização estatal. O espectro eletromagnético não pertence à Globo nem às suas afiliadas; pertence, ao menos em teoria jurídica, ao povo brasileiro, esse mesmo povo que vai à missa, frequenta o culto evangélico e leva a Bíblia na bolsa. Existe uma palavra para a situação em que o Estado entrega a alguém o direito de usar um bem público para atacar a visão de mundo dos proprietários desse bem público. Essa palavra não é "democracia".
A tradição intelectual ocidental que moldou o próprio conceito de democracia, de república e de dignidade humana bebeu, quer se goste ou não, de fontes profundamente religiosas. Retire o substrato cristão da formação do Ocidente e você não encontra liberdade de imprensa do outro lado, encontra vácuo, e o vácuo sempre é preenchido pelo poder mais próximo. As civilizações que tentaram esse experimento no século vinte deixaram um rastro de ossos suficientemente pedagógico para qualquer um com olhos e disposição para usá-los. O problema de cuspir na fonte é que, eventualmente, você precisa beber dela, e aí a dignidade que sobra é exatamente nenhuma.
O que está em jogo não é a sensibilidade dos fiéis, que sobreviveu a perseguições infinitamente mais sofisticadas do que o deboche televisivo de uma afiliada regional. O que está em jogo é o uso de um instrumento de poder cultural, sustentado por concessão pública e dinheiro publicitário, para fabricar um consenso hostil a determinada parcela da população com base exclusivamente em seus valores religiosos. Isso tem um nome preciso no vocabulário político, e esse nome não é pluralismo.
Com informações do Pleno News. A análise e opinião são do O Algoz.