No sábado, em Santa Catarina, o senador apareceu num palanque do partido com uma camiseta estampada anunciando o slogan da temporada: "O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula". Trocou o boné pela peça de algodão, e a peça de algodão fez o trabalho que mil discursos não fariam, porque slogan bom é aquele que cabe no peito e dispensa nota de rodapé. A graça da camiseta é justamente a sua honestidade involuntária. Ela admite, em duas linhas, que a política brasileira virou disputa de paternidade sobre tecnologias e bancos que nenhum dos dois construiu, mas sobre os quais ambos cobram pedágio simbólico e, no caso de um deles, pedágio bem concreto pago em dinheiro vivo do contribuinte.
Comecemos pela parte engraçada, que é também a parte trágica. O Pix não é de ninguém em particular, foi parido dentro do banco central por uma equipe técnica que provavelmente não vota em nenhum dos dois lados que disputam a etiqueta. Mas tudo bem, deixemos o crédito político correr, porque é jogo de boteco, e em boteco ninguém pede certidão. O problema começa quando a outra metade da camiseta entra em cena. O Master não é uma fintech inovadora resgatada por amor à modernidade financeira. É um banco que estava com a corda no pescoço, recheado de papel duvidoso, e que de repente recebeu um abraço institucional que vai custar caríssimo. Você não pediu esse abraço, você não foi consultado, você não emitiu opinião, mas a conta vai chegar pelo método mais antigo da humanidade: imposto, inflação ou as duas coisas ao mesmo tempo, em doses cavalares.
Pergunta primeira, e única que importa: quem paga e quem recebe? Recebe o acionista que aplicou em ativo arriscado e ia perder o que tinha. Recebe o operador que estruturou o esquema sabendo que existe um cobertor estatal pronto para encobrir o cadáver. Recebe o burocrata que ganha relevância distribuindo socorro, porque socorrer é a forma mais elegante de mandar. Paga o trabalhador da padaria, paga a costureira que aceita Pix porque maquininha de cartão come dez por cento, paga o entregador que termina o mês com a geladeira pela metade. É a operação mais antiga do livro, tão antiga que já tinha nome no porto de Roma quando os imperadores compravam a paz urbana com o trigo confiscado das províncias. Pão e circo financeiro, com a diferença de que o pão hoje vem com taxa de administração.
O detalhe rothbardiano da história, e aqui não tem como fugir do bisturi, é a engrenagem por trás do espetáculo. Toda vez que se monta um resgate, monta-se também a próxima crise, porque o sujeito que sabe que será salvo aposta mais alto, e o sujeito que paga a conta perde o estímulo de fiscalizar, já que não foi consultado mesmo. Chama-se isso, na linguagem técnica que o palanque despreza, de risco moral, e na linguagem do botequim, de cara de pau. O Estado entra como bombeiro, mas é o mesmo Estado que distribuiu fósforo, alvará e gasolina nos andares de cima. E quando a casa pega fogo, não falta câmera para registrar a heroica chegada do caminhão vermelho, com sirene e tudo.
A premissa maior é simples: quem cria o problema não pode ser celebrado por administrá-lo. A premissa menor: o sistema bancário brasileiro funciona dentro de uma jaula desenhada por quem agora oferece o resgate. A conclusão se monta sozinha, e dispensa diploma. Mas a conclusão lógica é exatamente o que a camiseta consegue ocultar com sua simpatia visual, porque a guerra cultural se faz no corpo antes de chegar à cabeça, e quando o eleitor ri da estampa, ele já abdicou da pergunta dura. Rir do adversário virou substituto da auditoria das próprias hostes, e é por isso que os dois lados, ao final do almoço, mandam a conta para o mesmo lugar: a sua.
Resta a parte que ninguém escreve na camiseta, porque não vende. O Pix é gratuito para você porque o banco central determinou, e o banco central pode determinar de novo, em sentido contrário, no dia em que precisar de receita ou de controle. O Master é caro para você porque o socorro nunca aparece na fatura, ele aparece no preço do feijão, no rendimento corroído da poupança, na taxa de juros que estrangula seu financiamento. Os dois nomes na frente da camiseta são marcas comerciais de uma mesma fábrica, e a fábrica não fecha aos domingos. Quem paga: você. Quem recebe: eles, os dois, alternadamente, conforme o calendário eleitoral exigir. O resto é figurino.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.